“Esse atual poder não sabe dialogar”, diz Fernando Conceição, candidato a reitor da UFBA

Fernando Conceição é candidato à reitoria da UFBA pela chapa 3 | Foto: Anna Paiva

por: Anna Paiva e Pedro de Sousa

O Notícias da UFBA publica, a partir de terça-feira (12), entrevistas com os quatro candidatos que disputam a reitoria da universidade. Em ordem alfabética: Fernando Conceição (12.05), João Carlos Salles (13.05), Penildon Silva Filho (14.05) e Salete Maria da Silva (15.05).
Fernando Conceição quer resolver problemas deixados por uma gestão que considera fracassada. Quer tornar realidade um teleférico que ligará Ondina e Federação, acredita em soluções para o SIGAA em 30 dias e promete valorizar docentes e servidores técnicos em educação. Sua vontade de ocupar espaços de gestão na universidade é antiga: foi candidato a diretor da Faculdade de Comunicação (Facom) em 2013 e 2017, além de ter disputado a eleição anterior para o cargo de reitor, em 2022. Não venceu nenhuma dessas disputas. À frente da chapa 3 (“UFBA Insurgente!”), tem como vice a professora Célia Sacramento, vice-prefeita de Salvador entre 2013 e 2016. Fernando é professor titular na UFBA. Graduado em Comunicação, possui atuação internacional em instituições como a New York University e University of California, além de ter feito parte de movimentos sociais na comunidade do Calabar, em Salvador.
 

Notícias da UFBA – Por que o senhor quer ser o reitor da Universidade Federal da Bahia?

Fernando Conceição – Para salvar a universidade do descalabro de 12 anos do fracasso de uma gestão que quer permanecer.

NU – Em seu plano de campanha, o senhor promete resolver os problemas do SIGAA [Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas] nos primeiros 30 dias de gestão. Esse é um prazo bastante específico para um sistema que acumula problemas desde o ano passado. Qual a sua estratégia para cumprir essa promessa?

FC – O SIGAA é um sistema que já funciona muito bem para pós-graduação há mais de 10 anos, o problema foi a implantação dele para os estudantes de graduação. Segundo uma portaria da reitoria, em 2024, foi atribuída ao atual vice-reitor [Penildon Silva Filho, também candidato a reitor] a função de gerenciar essa transição do antigo sistema para o SIGAA. E o vice-reitor, durante todo esse tempo, não fez nada. O problema é de gestão, não técnico. O problema técnico é solucionado com técnicos capacitados, por isso disse que em 30 dias a gente resolve. A UFBA possui técnicos ultracapacitados ligados ao setor de tecnologia da informação, além de pesquisadores dessa área aqui dentro. A questão não foi solucionada anteriormente porque esse atual poder não sabe dialogar. Autoritariamente demitiu uma das pessoas que estava no gerenciamento [a Superintendente Karina Moreira Menezes], o que gerou, como consequência, a demissão de toda uma equipe que, em solidariedade a ela, também pediu demissão dos cargos. Só novos administradores, com maior diálogo com os técnicos e o pessoal expert, podem solucionar isso. Nós temos capacidade de fazer isso em 30 dias. Se não solucionar completamente, é isso que digo no programa, vamos apresentar uma solução.

NU – No seu plano de campanha, é citado que sua gestão dará acesso livre a discentes, técnicos e docentes às plataformas de inteligência artificial (IA). O que é esse livre acesso? E como a gestão pretende equilibrar o acesso à inovação com a integridade acadêmica (plágio) e a formação crítica dos estudantes?

FC – Nós pretendemos viabilizar o acesso acadêmico a essas ferramentas em conversas com as Big Techs. Eu e a professora Célia Sacramento temos contatos em universidades fora do Brasil. Durante a pandemia, universidades do mundo todo fizeram parcerias com as Big Techs e os programas de acesso foram disponibilizados gratuitamente. A UFBA foi beneficiada com isso, ninguém pagou. Passada a pandemia é que esses produtos começaram a ser cobrados.

Nós vamos criar um projeto semelhante, mostrando às Big Techs as condições econômicas da maioria dos estudantes da UFBA. Há muitos estudantes vulneráveis, esses serão os primeiros beneficiados por essa nova tecnologia que queremos trazer gratuitamente. Nós temos que criar um protocolo de uso. Outras universidades, como a Unicamp, já têm uma comissão funcionando exatamente para isso. A inteligência artificial veio para ficar e só vai se aperfeiçoar, então, não adianta a universidade fechar os olhos e criar barreiras para o uso — seja por parte dos docentes, dos técnicos administrativos ou dos estudantes.

A questão é discutir a ética do assunto e, para isso, é preciso criar protocolos de uso. Se você vai produzir um artigo científico, uma das coisas que se discute neste protocolo é que o autor identifique claramente a fonte. Nós não vamos brigar contra essa tecnologia.

NU – O que será feito para viabilizar o projeto de teleférico ligando os campi de Ondina e Federação, promessa presente em seus compromissos de campanha?

FC – Isso é um serviço público. Hoje, quem está no campus de Ondina e tem aula na Federação ou em São Lázaro precisa subir uma escadaria, inclusive correndo risco de segurança. Nós vamos construir esse teleférico. Vamos mobilizar recursos por meio de parcerias e, caso o orçamento da universidade não seja suficiente, buscar emendas parlamentares e outras parcerias para viabilizar a obra o mais rápido possível. Quem sabe, já no primeiro ano de gestão, alunos, técnicos e docentes possam utilizar esse teleférico. Os recursos serão obtidos analisando parcerias que não comprometam a autonomia universitária, além de emendas parlamentares. É uma obra que me parece simples. Havendo alguma dificuldade, também podemos pensar, conforme está no programa, em escadas rolantes, sempre com segurança. Um destaque que demos no programa é que a universidade cuida muito bem do patrimônio, mas não há segurança para proteger as pessoas. Os alunos, quando se deslocam por esses matagais, estão em risco. Então, sem abrir mão da segurança patrimonial, o principal alvo do nosso projeto de segurança são as pessoas. Não só alunos e técnicos, mas todos que frequentam a universidade.

Foto: Pedro de Sousa
NU – O senhor promete que servidores técnicos em educação e docentes serão mais valorizados e estimulados. De que forma isso irá ocorrer?

FC – Existe uma lei aprovada recentemente, em março, que determina o reconhecimento dos saberes e competências por meio de promoções, o que também significa melhores salários. Nós também falamos em nosso programa que técnicos com qualificação poderão ministrar disciplinas na pós-graduação. Há aqui pessoas extremamente competentes. Técnico não pode dar aula na graduação, mas poderia ofertar e ministrar disciplinas na pós-graduação. Então, por que isso deve ser exclusivo de docentes, se a pessoa tem qualificação e formação para isso? Muitos técnicos não são reconhecidos. Outra proposta é colocar técnicos em cargos de gestão, com pró-reitores e pró-reitoras técnicos, assumindo cargos de chefia. E não será feito por indicação partidária. Pode-se alegar que já temos uma pró-reitora técnica nesta gestão escabrosa de 12 anos. Mas essa técnica, que inclusive é uma pessoa da minha relação, não foi indicada em função de seu desempenho acadêmico. Ela foi indicada pelo sindicato dos técnicos, que, por sua vez, é dominado por um partido político ao qual ela também é filiada. Então, foi uma indicação partidária.

Confira também as entrevistas com os outros candidatos: 

NU – Tivemos, recentemente, assaltos com homens armados dentro do campus. Caso seja eleito, como pretende lidar com a segurança na universidade?

FC – Nós vamos criar projetos de segurança voltados às pessoas, sem desvalorizar a segurança patrimonial. Como isso será feito? Por meio do diálogo com setores do Governo do Estado, porque a segurança pública é responsabilidade do governo, de acordo com a Constituição. Não é responsabilidade da universidade ou de uma reitoria. Ainda assim, podemos dialogar com os setores de segurança pública do Estado da Bahia visando implementar um programa que coíba esse tipo de acontecimento. Eu trabalho com essa questão há algum tempo, especialmente na minha atuação na favela do Calabar, onde temos diálogo com setores de segurança e, recentemente, a Polícia Militar da Bahia reconheceu esse trabalho e me homenageou com um título. Houve um evento na sede da Assembleia Legislativa em que o comandante-geral da Polícia Militar fez uma homenagem, em reconhecimento à preocupação que tenho com essa questão, porque ela é grave. Eu, como negro e como cara da favela, luto e batalho por isso. A mesma coisa vai se dar aqui na UFBA. Não quer dizer que vai eliminar esses fatos violentos, mas vamos coibir.

NU – Quanto ao BI (Bacharelado Interdisciplinar), o que a chapa pretende fazer diante de problemas como falta de vagas em cursos de concentração, mudanças frequentes no processo seletivo e dificuldade para assegurar matrículas em disciplinas?

FC – É tudo uma questão de gestão. De má gestão. Eu dou aula em um programa de pós-graduação, o Pós-Cultura, que fica exatamente no Instituto de Humanidades Milton Santos (IHAC). Há um problema sério de gestão nos Bacharelados Interdisciplinares porque, quando eles foram criados, se fez uma promessa. E logo surgiram reações de algumas unidades em receber esses estudantes. Há um nó que precisa ser examinado e desatado. Essa questão da falta de professores e da falta de vagas não acontece só no BI – embora talvez seja o caso mais grave. O problema acabou se generalizando nos últimos semestres, inclusive com as dificuldades que houve no SIGAA. Então, junto com a comunidade, os estudantes, os técnicos e os professores do BI, e eu estando com Célia [Sacramento, candidata a vice-reitora] na administração central, vamos buscar um canal de negociação para acabar com isso. Porque, se prometeu tanto lá atrás, por que agora existe essa falha? Vamos ver isso também.

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