Salete Maria, candidata à reitora da UFBA | Foto: Heloísa Trindade
Por Antônio Soares e Heloísa Trindade
O Notícias da UFBA publica, a partir de terça-feira (12), entrevistas com os quatro candidatos que disputam a reitoria da universidade. Em ordem alfabética: Fernando Conceição (12.05), João Carlos Salles (13.05), Penildon Silva Filho (14.05) e Salete Maria da Silva (15.05).
Salete Maria é uma candidata disposta a mostrar como as relações na universidade estão cercadas de privilégios ligados aos marcadores sociais de gênero, raça e classe. Única mulher a disputar o cargo máximo da reitoria, faz parte da chapa “Nossa UFBA”, que tem como vice Menandro Ramos, professor do Departamento de Educação da UFBA. Entre suas propostas está o fortalecimento das cotas sociorraciais e das políticas de permanência e mobilidade. Essa é a segunda vez que se candidata, a primeira foi em 2022. Em 2026, volta à disputa motivada pela implementação do voto direto no pleito. Salete Maria é advogada com especialização em estudos de gênero. Entre as suas bandeiras estão o combate ao assédio na universidade e medidas de inclusão, cuidado e diversidade. Ela foi candidata ao governo do Ceará em 2006 e ficou em 6° lugar com 4.165 votos. Atualmente, está lotada na Escola de Administração e lecionou na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas durante dez anos.
Notícias da UFBA – Por que a senhora quer ser reitora da Universidade Federal da Bahia?
Salete Maria – Na verdade, a intenção nem era ser candidata, mas, nos últimos 12 anos, eu e um conjunto de outras pessoas nos sentimos muito incomodadas com a perpetuação de um grupo político-partidário que, desde 2014, comanda a nossa universidade e cada vez mais tem restringido a participação da comunidade. A intenção é lutar para democratizar a nossa universidade. Só me decidi por ser candidata no dia 1° de abril, ou seja, 24 horas depois da legislação [Lei 15.367, que permite eleições diretas para reitor] ser publicada no Diário Oficial. Então, quero contribuir para democratizar a nossa universidade e desnaturalizar esses privilégios, inclusive em termos de gênero, de raça e de classe. Um pequeno grupo se reveza no poder de 2014 para cá. Quando o professor João [Carlos Salles] não é candidato, ele é o padrinho das chapas, então, ele faz o sucessor dele e agora quer voltar. A nossa intenção é exatamente exercitar o que a gente ensina, que é tentar democratizar a democracia universitária.
NU – Por qual motivo a chapa “Nossa UFBA” se intitula como “modesta, ousada e sincera”, e como as metas de democratizar, incluir, cuidar e avançar serão retiradas do papel?
SM – Meu objetivo é mudar a cara da gestão superior e trazer um novo perfil. Para tirar isso do papel, o primeiro passo é mudar a cara da universidade. A UFBA é uma instituição com 80 anos, tivemos 18 reitores e, até agora, só duas mulheres, sendo que elas não permaneceram muito tempo no cargo. Uma renunciou no primeiro ano, e a outra terminou o mandato, mas não quis se reeleger. É preciso mudar esse panorama. A UFBA é constituída por sujeitos variados, com perspectivas diversas de gênero, raça, classe e etnia. Portanto, tirar do papel vai ser fácil, porque a gente imagina que é possível fazer uma gestão compartilhada, participativa e com uma governança democrática. Sou prova viva de que quem diverge da atual gestão sofre perseguição e retaliação. Estou aqui na Escola de Administração transferida lá de São Lázaro, pois fui alvo de muita perseguição e assédio moral.
Para alavancar o primeiro verbo da nossa chapa, que é democratizar, vamos fazer algo tão simples, que outras universidades fazem, mas aqui nunca se cogitou, que é transmitir ao vivo pelos canais da instituição, em especial a TV UFBA, todas as reuniões do Conselho Universitário (Consuni).
No que tange a incluir, além de fortalecer as políticas de integração, as cotas sociorraciais para ingresso e as políticas de permanência e de mobilidade, a gente quer também novas ideias. Não basta só incluir as pessoas para serem adestradas e domesticadas, repetindo o mantra de quem está no poder. Então, garantiremos uma pluralidade epistêmica. Para cuidar, nosso propósito é fortalecer as políticas de inclusão, pensando em grupos historicamente discriminados, como os quilombolas, pessoas negras, LGBTs e trans. Iremos focar no público 60+, considerando que nós estamos na década do envelhecimento saudável, de acordo com a ONU.
Caso a gente vença, iremos avançar e dar uma virada de chave radical no que tange a participação de todos.
NU – Durante a campanha, você trouxe ênfase para a importância da ocupação de altos cargos por grupos historicamente marginalizados. Como é ser a única mulher candidata à reitora nesta eleição?
SM – Significa um desafio triplicado. Não é suficiente que eu tenha uma trajetória, dois pós-doutorados e expertise. Isso tudo vale menos a partir do momento em que você é mulher. E isso em uma universidade com um contingente maior de mulheres. E em algumas áreas, as mulheres não são apenas maioria, elas são a totalidade. É desafiador porque estou fazendo dessa campanha, também, um laboratório para meus estudos. Nós que produzimos estudos de gênero e de raça estamos testando as nossas teorias e as nossas teorias dizem que as mulheres são sub-representadas.
Nós não temos nenhum adesivo, não temos um folder, não temos um jornal, não temos absolutamente nada, exceto este programa que foi protocolado junto à comissão, e nele tem 80 propostas, distribuídas em cinco eixos. A gente está mostrando para a universidade que não é apenas um discurso sobre desigualdade estrutural. É uma vivência. Nós estamos, com essa candidatura, constrangendo a comunidade acadêmica para dizer: “Tudo isso que vocês falam de desigualdade estrutural está aqui”.
Para mim, que sou candidata mulher e a única, sem recurso, sem estrutura, sem nada, até mesmo a mídia. O jornal Correio, quando anunciou as pré-candidaturas, deixou a minha candidatura de fora. Então, por ser mulher, eu fico de fora da notícia, por ser mulher, fico prejudicada na linguagem da condição eleitoral, que, no lugar de se referir a mim como a reitora, na homologação eles colocaram “O Reitor Salete Maria”, e isso naturaliza o cargo ser exclusivamente para homens.
Então, é uma candidatura que apenas evidencia o que acontece na política mais geral. As mulheres são preteridas e secundarizadas, e, na UFBA, só são vistas como eleitoras, cabos eleitorais e, no máximo, vice. Estou chamando isso de uso instrumental das agendas de gênero e de raça.
NU – Você destaca que uma gestão transparente é um compromisso para a chapa e propõe o fórum de debates “UFBA com a Palavra” como uma maneira de efetivar uma política de planejamento participativo. Como você pretende pôr isso em prática?
SM – No que tange ao projeto “UFBA com a Palavra”, a gente pretende que seja um fórum permanente. Nós pretendemos respeitar os conselhos, obviamente, porque são pessoas eleitas, mas também, simultaneamente, ouvir toda a comunidade. No fórum “UFBA com a palavra”, você não vai, necessariamente, ter que ser representante de nada para falar nele, basta ser membro da nossa comunidade, inclusive pessoas terceirizadas. É como se fossem audiências públicas a cada seis meses para que pró-reitores prestem conta do que foi feito e justifiquem o que não foi feito.
As pessoas vão saber como participar, tanto por meio do uso estratégico das tecnologias de informação e comunicação, mas também tendo um espaço. Por exemplo, nós nunca usamos o auditório da UFBA para fazer audiências públicas para pensar a própria universidade, então ali pode ser um espaço propício para isso. Implementar isso seria colocar no calendário acadêmico, e todo mundo saberia que aquele é o momento para fazer esse balanço. E para as pessoas que porventura forem privadas de participar, por conta de algum tipo de perseguição, nós vamos mudar todo o modelo da estrutura que recebe denúncias. É uma outra proposta que está no mesmo eixo, que é transformar as ouvidorias, tanto a geral como a da mulher, em órgão autônomo independente em relação a qualquer autoridade universitária.
Queremos gerar confiabilidade, hoje ninguém confia na ouvidoria porque é uma extensão da alta administração. A pessoa é nomeada porque é alguém de confiança da reitoria. Se você quiser denunciar a própria reitora, para alguém que é da minha confiança, há um conflito de interesse. A gente não vai colocar cabos eleitorais para apenas ser um mero ouvidor. Vai ser uma seleção feita através de um critério técnico. Com a TV UFBA, você estando em qualquer lugar do planeta, pode assistir ao que aconteceu lá no fórum. Então, a nossa proposta é pensar exatamente nessa máxima transparência, garantindo confiar também nos órgãos de gestão.
NU – Como você pretende reparar problemas pré-existentes que afetam objetivamente o cotidiano da comunidade acadêmica, como, por exemplo, a implementação do SIGAA?
SM – Uma resposta pronta para o dia seguinte após as eleições, eu não tenho. Há uma falta de informação, afetando até mesmo a construção de uma proposta. Portanto, na questão do SIGAA, eu precisaria, como reitora, tomar pé do que de fato aconteceu, porque o que existe hoje é uma guerra de narrativas.
Qualquer coisa que se queira saber desse fenômeno, você vai comprar alguma narrativa e eu confio na técnica. Por um lado, tem a competentíssima ex-superintendente da Supac, doutora Karina Menezes, que foi apontada como a causadora desse caos, quando, na verdade, o problema é mais político do que técnico. O SIGAA funciona em várias outras universidades.
A UFBA tem suas particularidades, existe um problema de cultura organizacional muito assimétrica, as relações de poder são muito desiguais. Então, muitas vezes há um desequilíbrio entre coordenação de colegiado, Prograd [Pró-Reitoria de Graduação UFBA] e a própria reitoria. A questão do SIGAA está sendo tratada como se a culpa fosse de Penildon, de Miguez ou dos técnicos.
Então, a primeira medida seria auditar o que aconteceu, porque, enquanto ficar esse pingue-pongue técnico e político, você vai ter que escolher qual narrativa comprar, e a gente não confia na narrativa da reitoria. O estudo de viabilidade para a implementação do programa começou no primeiro mandato de João Carlos Salles em 2014. Mas a UFBA não trabalha de maneira intersetorial, digamos que não existe um diálogo entre o STI e Supac para o entendimento do sistema.
Como reitora, nos primeiros dias, mandaria auditar para descobrir tudo que aconteceu. Nossa intenção é fazer uma gestão com base em evidência científica, com base em dados, deixar o político de lado e o técnico prevalecer, não que o técnico não seja político.
Vamos conversar com as equipes técnicas e possibilitar que elas possam desenvolver suas competências e habilidades. Nesse período de adaptação, estudaremos a possibilidade de reabilitar o SIAC, pois, quando há uma mudança curricular, existe a convivência de dois currículos no curso.
Confira também as entrevistas com os outros candidatos:
- Fernando Conceição: “Esse atual poder não sabe dialogar”
- João Carlos Salles: “A universidade não está sendo apresentada como prioridade nacional”
- Penildon Filho: “É possível ter uma gestão boa e proativa para captar recursos”
NU – Um dos pilares temáticos do seu plano diz respeito à valorização dos servidores públicos e nele inclui propostas com garantias à integridade mental e física desses profissionais. Você acredita que essas reivindicações são a resposta para a atual greve de servidores técnico-administrativos?
SM – Pode, em grande medida, contemplar, porque outras pautas dependem do governo federal. Eles têm queixas relacionadas com as condições de trabalho, mas o que está mobilizando essa greve é exatamente o descumprimento de um acordo com o governo federal. A gente já percebeu que, independentemente de quem seja o presidente ou a presidenta, nós sempre tivemos uma relação muito tensa com a alta administração, no que tange aos recursos e ao cumprimento dos acordos.
Tenho boas relações com o sindicato, mas também com a oposição ao sindicato, porque sou a primeira e, até hoje, a única pesquisadora que fala sobre o assédio moral no trabalho na universidade. Então, foram essas pessoas que me deram informações e penso que grande parte das minhas propostas atende às necessidades da categoria, inclusive às das mulheres da categoria que são um grande contingente. O número de pessoas afastadas hoje para cuidar da saúde chega a ser superior a 200 na UFBA.
As minhas propostas contemplam, em grande medida, aquilo que ouvi quando fiz entrevistas com eles, relacionadas a relações e condições de trabalho, e também aos horários e ao modo como eram tratados. E muitos desses técnicos e técnicas se sentem pouco valorizados. As nossas propostas estão relacionadas à política de atenção à saúde mental dos trabalhadores, docentes e TAEs [Técnico-Administrativo em Educação].
Essa é uma demanda prioritariamente dos TAEs, porque há, realmente, uma situação de chegar lá no núcleo de atenção à saúde do trabalhador, que é o serviço médico da UFBA, e ver elevado índice de pessoas adoecidas e tirando licença. Tudo isso causa impacto, pois sobrecarrega o colega que ficou, e a universidade não investiga a razão dessas licenças. A ideia de ter uma política de cuidado está muito relacionado com as condições de trabalho.
NU – Destacada no seu plano de gestão, como será a preservação de áreas verdes dentro do campus? Existe alinhamento com a agenda de desenvolvimento sustentável estabelecida pela ONU?
SM – Nossa meta é colocar a temática ambiental na agenda institucional, o que demandaria primeiro uma política predefinida. A UFBA não tem uma política ambiental, apenas eventos pontuais, nos quais questões climáticas são tratadas. Mas não existe uma política dizendo quais são as diretrizes, ações e metas que a universidade pretende alcançar.
Nosso objetivo é realizar um seminário exclusivo para essas temáticas, vinculadas não só ao meio ambiente no sentido amplo dessa palavra, mas ao meio ambiente laboral. Deste modo, trabalhar junto à Superintendência de Meio Ambiente e Infraestrutura (SUMAI).
Somos a única chapa que não distribuiu materiais, também por falta de dinheiro, mas, por outro lado, a gente entende que a comissão eleitoral deveria ter disciplinado essa campanha para que a gente trabalhasse com tudo de maneira virtualizada. Seria mais inclusiva, democrática e ecologicamente positiva. Temos e-mails institucionais que alcançam toda a UFBA, páginas de internet, perfis etc.
Então, é preciso colocar na agenda e tematizar o seminário, abrindo a discussão juntamente com o projeto “UFBA com a palavra”, para que com esse fórum permanente, a gente possa incluir isso para ser costurado com a comunidade.
A comunidade não tem que ser chamada somente em época de eleição, também irei conversar com pessoas especializadas, os experts estão na mão, presentes em alguns cursos, a exemplo da biologia.

