“A universidade não está sendo apresentada como prioridade nacional”, afirma João Carlos Salles, candidato a reitor da UFBA

João Carlos Salles, candidato a reitor da UFBA | Foto: Ludmila Gomes

Por Juliwendell Oliveira e Ludmila Gomes

O Notícias da UFBA publica, a partir de terça-feira (12), entrevistas com os quatro candidatos que disputam a reitoria da universidade. Em ordem alfabética: Fernando Conceição (12.05). João Carlos Salles (13.05), Penildon Silva Filho (14.05) e Salete Maria da Silva (15.05).
 João Carlos Salles conhece as dificuldades da gestão. Foi reitor por dois mandatos (2014-2022) e acredita que sua experiência pode ser colocada, novamente, à disposição da universidade. No seu plano de campanha, recebem destaque as pautas voltadas à luta por mais orçamento, a busca pela união entre universidades federais com o objetivo de uma mobilização nacional, o fortalecimento dos Bacharelados Interdisciplinares (BIs) e o investimento em ações que ampliem a segurança na UFBA. O candidato compõe a chapa “Somos UFBA” em conjunto com Jamile Borges da Silva, candidata a vice-reitora, professora da Faculdade de Educação (FACED) e coordenadora do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO). Salles é professor titular do departamento de Filosofia e integrante da Academia de Letras da Bahia e da Academia de Ciências da Bahia. Atuou também como presidente da Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) e da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). 

 

Notícias da UFBA – Por que o senhor quer ser o reitor da Universidade Federal da Bahia?

João Carlos Salles – Eu já fui reitor. Creio que, em um momento de grande adversidade, nós conseguimos  enfrentar a falta de orçamento e conseguimos agregar a nossa comunidade. Isso levou várias pessoas a falarem que, nesse momento, seria muito oportuno que essa experiência fosse colocada a serviço da universidade. Que experiência é essa? De lutar por orçamento e de manter a liga na nossa instituição. Então, na verdade, aceitei ser candidato de um projeto coletivo que se afirmou conclamando que eu apresentasse a minha candidatura.

NU Como o senhor planeja lidar com as limitações orçamentárias na universidade? 

JCS – A universidade está prejudicada por uma redução orçamentária significativa que nós temos que reverter. É uma situação em que a universidade não está sendo apresentada como prioridade nacional. Então, primeiro, a nossa luta é local, envolve várias ações, inclusive ações de recursos extra orçamentários, mas o foco central é uma luta que envolve nacionalmente todas as universidades federais, de modo que a universidade pública se torne prioridade nacional. Isso me parece fundamental. Sem a destinação de recursos para garantir as despesas de investimento e de custeio para o funcionamento regular da universidade, e que permitam o ensino, pesquisa e extensão de qualidade, a sociedade brasileira vai estar renunciando a um projeto estratégico, um projeto que está ligado a uma ideia de nação verdadeiramente, radicalmente, democrática.

NUA gestão atual é vista como herdeira da sua gestão. Como o senhor planeja ser essa mudança do que é visto como continuidade? 

JCS – Fiz uma gestão de oito anos e acho que alguns princípios fundamentais naquela gestão não estão sendo representados nesse momento, no sentido de que há uma dissolução das relações, e, portanto, quero fazer um vínculo e ser continuidade de um projeto bem-sucedido. Projeto que se não foi bem-sucedido em certos aspectos,  é um projeto de conjugação de excelência acadêmica e compromisso social. Sou continuidade de uma ideia, não sou responsável pela atual gestão, porque não estive nos últimos anos. Problemas atuais não estão à altura daquela conjugação essencial entre excelência acadêmica e compromisso social, que pautou  um projeto fundamental para a Universidade Federal da Bahia.

João Carlos Salles | Foto: Ludmila Gomes
NU – Os estudantes dos BIs [Bacharelados Interdisciplinares] enfrentam problemas, como as mudanças frequentes nos processos seletivos, dificuldades de se matricular em disciplinas e falta de vagas nos cursos de concentração. Como a chapa planeja solucionar isso? 

JCS – Os BIs são uma grande aposta da Universidade Federal da Bahia, mas, como a grande aposta da universidade, ela precisa ir a, digamos assim, uma boa condução, boa qualidade e ao enfrentamento de problemas que hoje atingem os estudantes do BI. Precisa ser um enfrentamento feito conjuntamente pela universidade. Primeiro, apoiar os BIs, compreender a singularidade e reforçar a estrutura de pessoal, compreender especialmente a estrutura curricular de tal modo que a implantação de sistemas como o SIGAA não comprometam as matrículas dos alunos. É garantir vagas para os alunos em diversos componentes curriculares e fazer com que a existência do BI não seja considerada jamais uma ameaça à qualidade dos cursos que deve também ser preservada. Ou seja, temos o desafio de preservar também os cursos de progressão linear, com matrizes mais disciplinares, inclusive porque elas podem dialogar bem com a interdisciplinaridade e a singularidade próprias do BI. Então, nossa tarefa é encontrar soluções que envolvam toda a universidade. A UFBA não precisa fazer uma escolha entre os BIs e os cursos de progressão linear. Dá para encontrar a medida certa em que a demanda legítima dos BIs não venha a prejudicar a qualidade dos cursos e encontrar a medida certa de que a passagem, a transição, seja uma forma de enriquecimento para todos os cursos da universidade.

NU – A segurança no campus vem sendo questionada e, no último mês, ocorreram assaltos dentro do perímetro da UFBA. Como a sua chapa planeja melhorar a segurança e garantir que as pessoas se sintam seguras dentro da UFBA?

JCS – A segurança dentro da UFBA, certamente, é maior do que fora da UFBA, mas isso não nos consola porque queremos sentir segurança em todos os espaços. Nós precisamos de investimentos desde a poda de árvores, a iluminação, ao monitoramento com câmeras e ao número maior de vigilantes. Mas é bom lembrar que estamos falando de uma universidade pública, onde o segredo fundamental da segurança é o reconhecimento mútuo da comunidade. Nós voltamos a fazer uma aposta que fizemos antes e começou a ser implantada, que era o UFBA Card como uma das soluções. Não é a única e não é uma solução milagrosa. O UFBA card é uma forma de identificação da comunidade da UFBA, que não visa isolar a universidade e nem impedir a entrada das pessoas, mas sim, fazer com que as pessoas se reconheçam no espaço da universidade. Isso me parece já uma medida fundamental, porque sempre que nós tivemos a presença da comunidade na universidade, a segurança é maior. Temos que combater um esvaziamento dos nossos espaços e isso me parece também algo associado à segurança. Ou seja, a segurança não é apenas questão de policiamento, é questão de políticas de ocupação, reconhecimento e acolhimento da nossa comunidade que, mais presente na universidade, vai certamente se sentir mais segura.

Confira também as entrevistas com os outros candidatos: 

NU Seu plano de campanha fala de diversidade e acolhimento. Como o senhor planeja fazer com que esses valores sejam realidade na universidade?

JCS – Veja, se for só discurso, não serve para nada. O acolhimento como discurso é você ter uma vaga na universidade. O aumento de vagas foi resultado de uma política muito importante, inclusive a de aplicar uma política de cotas que foi fundamental para mudar o perfil da nossa universidade. Mas as pessoas não podem enfrentar dentro da universidade exclusões que enfrentam fora. Então, você precisa ter espaços de convivência, diálogos mais profundos e oportunidades para que as pessoas que chegam à universidade, inclusive, tragam a sua contribuição de origem, a sua marca cultural e se reconheçam em um  diálogo de tal sorte que na universidade pública a palavra, o diálogo, o reconhecimento da diversidade dê a tônica. Dessa forma, o acolhimento não será retórica, o acolhimento será política e o sentimento de pertencimento fortalecerá a nossa universidade.

NUComo um considerado filho de São Lázaro, enquanto candidato a reitor, o senhor tem algum plano para São Lázaro?

JCS – Não sou considerado filho de São Lázaro, eu sou filho de São Lázaro. É minha casa, é o lugar onde me formei e tenho relações pessoais importantes, mas, como reitor, o campus de São Lázaro não terá privilégios. Ele tem necessidades que serão atendidas. Nós vamos ter uma política forte porque estou em São Lázaro, há precarização do espaço e reconheço os problemas. Colocaremos isso na mesa. Mas, o fato de eu ser filho de São Lázaro, não vai fazer com que haja algum privilégio, e isso é uma coisa que as pessoas não compreendem. Quando me tornei reitor, era da universidade inteira e pude descobrir que havia outras necessidades que precisavam ser também atendidas. É esse conjunto de necessidades que nós vamos colocar na mesa e democraticamente, transparentemente, decidir quais são as prioridades. Como reitor não deixei de fazer investimentos em São Lázaro. Nós temos uma biblioteca que começa na nossa gestão. Essa biblioteca é importante, a nova biblioteca Isaías Alves. Um projeto que começou, inclusive, antes de eu ser diretor da faculdade, quando estava na coordenação desse projeto para ter uma nova biblioteca. Houve iniciativas em São Lázaro feitas na minha gestão ou em decorrência de meu trabalho, mas isso não significa privilegiar, ou dar um prestígio maior só pelo fato de eu ser filho de São Lázaro. Sou filho de São Lázaro com muito orgulho e vou trabalhar por São Lázaro e pela UFBA inteira. 

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