Acusações, protestos e promessas de melhorias marcam o último debate antes das eleições na UFBA

Debate foi marcado pelas demonstrações de insatisfação da plateia. Acusações de fascismo e misoginia foram trocadas entre estudantes e candidatos | Foto: João Macêdo

Por Ana Letícia Costa e Marcela Ramos

 

A comunidade acadêmica da Universidade Federal da Bahia (UFBA) acompanhou, na noite de segunda-feira (18), o segundo debate entre os candidatos à posição de reitor, realizado na Faculdade de Arquitetura da UFBA e transmitido ao vivo pela TV UFBA. Promovido pela Comissão Eleitoral, o encontro reuniu os representantes das quatro chapas que disputam o pleito:  Penildon Silva Filho (Chapa 1 – Mais UFBA: sua voz importa),  João Carlos Salles (Chapa 2 – Somos UFBA),  Fernando Costa Conceição (Chapa 3 – UFBA Insurgente!) e Salete Maria (Chapa 4 – Nossa UFBA: democratizar, incluir e cuidar para avançar). 

A mediação foi conduzida pelo jornalista político Victor Pinto, apresentador na Band Bahia e egresso da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA. Ele guiou a discussão com questionamentos voltados aos principais desafios e perspectivas para o futuro da universidade, em mais uma etapa decisiva antes da votação. 

As regras do debate, definidas pela norma complementar 03/2026, foram as mesmas do debate anterior, que aconteceu no dia 14 de maio, no Salão Nobre da Reitoria da UFBA. O  evento foi dividido em quatro blocos:

  • Primeiro bloco: cada chapa teve cinco minutos para fazer uma apresentação inicial e expor suas principais propostas. A ordem de fala, decidida por sorteio, foi João Carlos Salles, Salete Maria, Fernando Costa Conceição e  Penildon Silva Filho.
  • Segundo bloco: perguntas entre os candidatos seguindo a ordem determinada no sorteio inicial.
  • Terceiro bloco: perguntas da comunidade acadêmica na ordem – estudantes, técnicos e docentes.
  • Quarto bloco: considerações finais.

PRIMEIRO BLOCO

No primeiro bloco ocorreu a apresentação dos candidatos a reitor e vice-reitor da universidade, além do reforço das propostas das candidaturas.  

Joāo Carlos Salles afirmou que a universidade deve ser um espaço de autonomia e democracia, e que a precarização dos espaços universitários exige uma mobilização coletiva e urgente da comunidade acadêmica. Ele demonstrou  solidariedade à comunidade da UFBA de Vitória da Conquista, que atualmente passa por uma crise devido a uma série de intoxicações alimentares registradas após refeições no restaurante universitário. 

Salete Maria iniciou sua fala destacando a ausência de maior representatividade feminina na disputa pela Reitoria. A candidata também criticou o que classificou como omissão da universidade diante de casos de assédio moral e rejeitou a continuidade do atual grupo político à frente da gestão. Segundo ela, sua candidatura busca expor contradições entre o discurso e a prática daqueles que afirmam defender a democracia universitária, além de defender a alternância de poder após 12 anos de hegemonia administrativa.

Fernando Conceição  classificou a situação da Universidade Federal da Bahia como caótica e ressaltou a necessidade de auditorias em contratos feitos na gestão de João Carlos Salles e Penildon Silva. Além disso, repudiou o despejo da comunidade instalada em São Lázaro há mais de 90 anos e  reforçou que o apoio de pessoas negras à candidatura de João refletiria, na sua avaliação, um processo de “autorrejeição” racial. Segundo ele, esse posicionamento estaria relacionado ao que classificou como alinhamento à “branquitude”.

Penildon Silva Filho destacou a alta evasão estudantil nas universidades federais, apontando que o índice se aproxima de 50% e que o problema não se restringe a UFBA, mas afeta o conjunto das universidades públicas federais no país. Como proposta, defendeu a criação de um observatório de acompanhamento da trajetória estudantil na graduação, com o objetivo de identificar estratégias para fortalecer a permanência estudantil. 

 

Confira também as entrevistas realizadas pelo Notícias da UFBA com os candidatos a reitoria:

 

SEGUNDO BLOCO

Cada candidato teve a oportunidade de fazer uma pergunta ao seu oponente seguinte na ordem do sorteio. Foram dois minutos para a pergunta, três minutos para resposta e um minuto para a tréplica.

Primeira pergunta 

João Carlos Salles apontou a transparência como  fundamental para a força da UFBA e questionou Salete a respeito  de uma das maiores defesas de sua candidatura: combate  ao assédio na universidade.  O candidato garantiu que, caso seja eleito, fará  auditorias de todos os contratos e pendências na  universidade.

Salete Maria  ponderou não ter recebido diretamente uma pergunta  e disse ter havido falta de transparência nas gestões de João Salles. Ela apresentou a experiência pessoal de quando apresentou uma denúncia de assédio dentro da UFBA. Salete afirmou que, caso seja eleita, as ouvidorias serão ocupadas por pessoas com avaliação técnica, sem interferências de cabos eleitorais. 

“Tornaremos a ouvidoria um órgão autónomo e independente de qualquer autoridade para garantir a confiabilidade e para evitar os conflitos de interesse”, destacou. 

Segunda pergunta

Salete Maria indicou a forte presença de partidos políticos nas campanhas dos candidatos a reitor durante o processo de eleição deste ano. Ela questionou se o candidato Fernando Conceição acredita que a comunidade tem como tomar decisões livremente, principalmente com a implantação de votos diretos, porém não universais, nas eleições da UFBA. Ela ainda  questionou como será a relação do professor Fernando, em caso de sua vitória, com essas agremiações, fazendo a denúncia de que a partir do momento da vitória de João Salles em 2014, as pró-reitorias da universidade se tornaram espaços a serem ocupados e loteados por partidos políticos.

Fernando Conceição defendeu os partidos políticos como peças fundamentais em um processo democrático e se declarou favorável ao pluralismo partidário, mas concordou com os apontamentos feitos por Salete. Conceição  afirmou que não se pode deixar partidos políticos tutelarem a universidade e disse que os candidatos João Salles e Penildon Silva são “correias de transmissão de projetos políticos ideológicos muito parecidos entre si”.

“Esse tipo de conduta implica em muito tráfego de influência desses partidos nos problemas internos acadêmicos da universidade”, expôs.

Terceira Pergunta

Fernando Conceição apresentou um conceito de divisão da universidade a partir do intelectual Milton Santos, o de produtores de conhecimento e o de buro-professores (os que não têm contribuição a dar no campo da ciência mesmo em espaços de importância na universidade). Fernando, então, questionou Penildon Filho em qual dos dois conceitos o candidato acha que se enquadra.

Penildon Silva Filho também citou Milton Santos para debater as questões afirmativas e disse ter muita honra de, na sua gestão em 2018, ter contribuído para as ações afirmativas dentro da UFBA com a criação de duas novas vagas supranumerárias (para pessoas transexuais e para refugiados) e a duplicação da quantidade geral dessas vagas.

Ele ainda citou a necessidade de procura de mecanismos que incentivem a permanência desses alunos na universidade, declarou que teve contato com alguns coletivos indígenas e que, como reitor, pretende buscar parcerias para promover a política de permanência para os indígenas e quilombolas.

“A Universidade Federal da Bahia pode mais. Não basta somente ter ingresso, tem que ter permanência, e nós temos projeto, proposta e como fazer essa universidade avançar”, disse.

Quarta pergunta 

Penildon Silva Filho apresentou a existência de diretrizes do seu plano de gestão: defesa da universidade pública gratuita e concepção de universidade. Em seguida, falou que a educação integral e a educação básica precisam aprofundar laços com a  UFBA. Ele perguntou a João Carlos Salles quais são as propostas para esse desafio.

João Carlos Salles disse que a relação da universidade com a educação básica é “essencial e, muitas vezes, mal compreendida”. Salles relembra um episódio de conflitos de ideias com Abraham Weintraub (ex-ministro da Educação do Brasil). Na ocasião, o então ministro afirmou que os investimentos para manter apenas um aluno na universidade pública seria suficiente para abrir quase 20 vagas em creches. João afirma ter percebido uma estratégia “nefanda” de imaginar a valorização e investimento na educação básica em detrimento da educação superior e trouxe antigas declarações de que “creche não é depósito de crianças”.

“Creche é lugar que precisa de pedagogo, psicólogo, nutricionista, enfermeiro… A creche da UFBA precisa melhorar, avançar, ter mais vagas e outras condições e nós compreendemos bem essa importância de uma ligação estreita e interna através da educação superior”, defende.

Salles citou que há pontos positivos no  projeto de educação integral desenvolvido por Penildon, mas que, por vezes, essa captação é “tomada como uma medida individual”, como se fosse um ganho trazido somente por Penildon junto ao governo federal, e não por um coletivo. No final da sua resposta, Salles se defendeu de acusações anteriores ao afirmar que não teve representação de pessoas de nenhum partido político, e sim, pessoas de partidos inseridas na gestão.

Debate aconteceu na Faculdade de Arquitetura da UFBA com transmissão ao vivo pela TV UFBA | Foto: Fernanda Carvalho

 

TERCEIRO BLOCO

O terceiro bloco trouxe as demandas diretas da comunidade acadêmica por meio de perguntas sorteadas em três urnas — representando discentes, técnicos e docentes. Mantendo a ordem estabelecida no bloco anterior, os candidatos tiveram três minutos para responder a temas cruciais para o futuro da instituição, como a comunicação interna, a governança e o financiamento federal.

A grande quantidade de reações na plateia do auditório gerou diversos embates entre candidatos e o público. As interrupções contínuas à dinâmica das apresentações prejudicaram o cumprimento do tempo estipulado pelo cronômetro. A elevação dos ânimos e a insistência nas manifestações de apoio ou rejeição aos candidatos motivaram um pedido para que o auditório fosse esvaziado ou que os manifestantes mais exaltados fossem retirados. Após a contenção do público, o debate seguiu com o previsto com todos no auditório. 

QUARTO BLOCO

Nas considerações finais, cada chapa resumiu suas propostas e fez o último apelo ao eleitorado. Confira um trecho de cada discurso:

João Carlos Salles

“A universidade é o local da inteligência, e às vezes nós não sabemos bem o que é isso. A inteligência parece ser da ordem das coisas cítricas e não naturalmente doce. Ela seria em geral áspera, raramente acolhedora. Nós queremos uma inteligência que não seja cítrica, mas sim crítica. Queremos recompor esse tecido no sentido de um projeto de universidade que faça justiça a essa expansão. Vamos avançar além desse cenário em que as pessoas até temem manifestar suas posições, ou estão envoltas em alguma cobiça. Vamos fazer prevalecer as paixões alegres, que são próprias da UFBA, uma UFBA que faz festa, uma UFBA que celebra o amor, a amizade, a colaboração.”.

Salete Maria

“Eu quero me dirigir a você, que está farto e chegou ao seu limite desse modus operandi masculino e brancocêntrico de governar a nossa UFBA. O processo eleitoral não escapa às hierarquias sociais, raciais e de gênero que estão presentes na sociedade e que se reproduzem aqui. Essa gritaria inteira é por que eles estão com medo porque essa é a primeira eleição em que temos uma mesa constituída por vozes que foram inaudíveis ao longo de anos. Agora o voto é direto, é secreto, ele não é universal mas nós podemos mudar esse jogo. Vamos nós que estamos fartos dessa violência política simbólica que nos excluem dos sistemas, das eleições e que agora querem nos silenciar.”

Fernando Conceição

“Eu e Célia Sacramento, ao disputarmos, estamos fazendo história. Fomos nós dois que, desde o ano passado, começamos a batalhar pela mudança das regras na escolha do reitor. Fomos os primeiros pré-candidatos a defender a instituição de ‘diretas já’. Então, nós nos consideramos já parcialmente vitoriosos por mudar as regras do jogo. Representamos a maioria das população desse estado e que hoje também está dentro da universidade, demograficamente há diversidade, mas essa diversidade não é representada nos espaços de poder e nós representamos isso, a necessidade de mudar os espaços de poder e a qualidade e a diversidade nesses espaços.”

Penildon Silva

“Eu quero reafirmar: nós somos aqui a mudança, e não temos medo de dizer isso. Se vocês querem mudança venham com a gente, vamos juntos construir uma nova universidade. Podemos sonhar com a mudança porque nós já temos sinais de que podemos ter esperança. Apresentamos aqui uma proposta muito clara de reabilitar nosso centro de esportes, que não será somente para os esportes, mas também para cultura e lazer. Compreendendo que o esporte e o lazer são dimensões da cultura e a cultura é fundamental como política de permanência, que não é possível se manter sem criar espaços de convivência, para serem criados laços de solidariedade e apoio mútuo.”

Estudantes protagonizaram momentos de tensão ao manifestar sua insatisfação com a gestão atual e os possíveis reitores | Foto: Maria Clara Valério

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