Salão nobre da Reitoria reuniu a comunidade acadêmica para o primeiro debate das eleições para reitor da UFBA. | Foto: Ludmila Gomes
por: Diego Rocha e Yasmine Braz
Quatro candidatos que disputam o posto máximo da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) participaram, na manhã desta quinta-feira (14), do primeiro debate que antecede os dias de votação, na próxima semana. O encontro foi realizado pela Comissão Eleitoral, no salão nobre da Reitoria, com transmissão ao vivo na TV UFBA. Estiveram presentes Fernando Costa Conceição (Chapa 3 – UFBA Insurgente!), João Carlos Salles (Chapa 2 – Somos UFBA), Penildon Silva Filho (Chapa 1 – Mais UFBA: sua voz importa) e Salete Maria (Chapa 4 – Nossa UFBA: democratizar, incluir e cuidar para avançar).
A mediação foi feita pelo jornalista Pablo Reis, apresentador da TV Aratu e egresso da Faculdade de Comunicação (Facom).
O debate foi dividido em quatro blocos:
- Primeiro bloco: apresentação inicial da chapa e suas principais propostas em cinco minutos. Após sorteio, os candidatos falaram na seguinte ordem: João, Penildon, Salete e Fernando.
- Segundo bloco: cada candidato perguntou a um adversário na mesma ordem do bloco anterior. Foram dois minutos para perguntas, três minutos para respostas e um minuto para tréplica.
- Terceiro bloco: foi feita uma pergunta de cada uma das categorias de eleitores (docentes, discentes e servidores). Todos responderam de acordo com a ordem estabelecida em sorteio.
- Quarto bloco: considerações finais dos candidatos.
PRIMEIRO BLOCO
No primeiro bloco, os candidatos se apresentaram ao público e, em seguida, expuseram seus planos de gestão.
João Carlos Salles abriu a rodada ressaltando que sua campanha tem apoio e representa um movimento coletivo. Em seguida, elencou conquistas de seus dois mandatos anteriores (2014–2022) e concluiu o discurso afirmando que seu plano de gestão envolve uma universidade autônoma e democrática. “Essa luta pela relevância da universidade é a luta por uma instituição plena, crítica e que jamais se deixará render ao mercado, aos partidos ou a qualquer governo. Porque nós somos autônomos e democráticos. Somos UFBA.”
Penildon Filho salientou a importância da UFBA em diferentes setores da sociedade baiana e apresentou seu plano de gestão baseado em três diretrizes: universidade pública, gratuita e acessível; maior integração da universidade nos debates públicos; e colaboração entre gestão universitária e política. “É possível construir uma gestão mais eficiente. Se vocês nos derem esse voto de confiança, a mim e à professora Bárbara, tenho certeza de que construiremos juntos uma gestão democrática e comprometida com o crescimento da universidade.”
Salete Maria começou seu discurso fazendo sua audiodescrição para garantir acessibilidade a pessoas com deficiência visual. Em seguida, denunciou a falta de representação feminina entre as candidaturas à reitoria e a ausência de isonomia no processo eleitoral. “Estamos aqui para questionar e dizer que a mudança está em nós, nas chapas contra-hegemônicas. E a nossa chapa, composta por mim e pelo professor Menandro, é a única que não tem máquina administrativa.”
Fernando Conceição abriu o discurso relembrando o dia 13 de maio de 1988, centenário da abolição da escravidão no Brasil. Apontou privilégios históricos e ancestrais dos candidatos João Carlos Salles e Penildon Filho, exaltou a comunidade negra e destacou as dificuldades de acesso a espaços de poder. “Quantas porradas levamos? A força do poderoso não se sustenta sem permissão. Agora cito [Karl] Marx: ‘Tudo que é sólido desmancha no ar’. O poder desse que tem poder somente é poder se eu permito. Vamos, com a ajuda dos estudantes, dos técnicos, dos docentes, ressignificar a Universidade Federal da Bahia.”
SEGUNDO BLOCO
Os candidatos fizeram perguntas aos concorrentes.
O candidato João Carlos Salles questionou Penildon Silva Filho sobre sua proposta de enfrentar problemas com a pós-graduação, como bolsas, associações e programas de integração entre pós-graduação, graduação e extensão. Penildon respondeu que a instituição não é somente voltada para o mercado de trabalho, mas reflete uma superação social. Ele prometeu redirecionar a formação cultural para fortalecer e aprofundar a relação da universidade com a sociedade brasileira.
Em tréplica, João Carlos rebateu a ligação da pesquisa com a graduação: “a pesquisa não se restringe à pós-graduação. Nós que fazemos pesquisa realmente, sabemos que não estamos em torre de marfim. Formamos pessoas o tempo inteiro”.
Penildon questionou Salete Maria sobre os casos de violências institucionais no meio acadêmico e perguntou quais propostas pretende adotar para combater esse problema dentro da universidade. Em resposta, a candidata garantiu medidas de prevenção com transformação de médio e longo prazo com pessoas que estejam na gestão e que se capacitem nesse sentido. Além disso, assegurou reparação material, funcional e simbólica às vítimas.
Salete questionou Fernando Conceição sobre ele não ter sido convidado para as celebrações do centenário do geógrafo Milton Santos, mesmo sendo o biógrafo autorizado do intelectual. A candidata também perguntou qual seria sua postura caso assumisse a reitoria da UFBA.
Fernando afirmou ter sido escolhido para escrever a biografia de Milton Santos e disse pesquisar a trajetória do geógrafo há 20 anos. Sobre a ausência no evento, declarou: “Quando a UFBA não me convida para participar desse momento, acho que tem inveja”.
O candidato ainda criticou a estrutura da universidade: “A UFBA é formada, muitas vezes, por pessoas que se apropriaram do espaço público para privatizar. Nós vamos desprivatizar e tornar a UFBA uma universidade pública diversa”.
Confira entrevistas com candidatos:
- Fernando Conceição: “Esse atual poder não sabe dialogar”
- João Carlos Salles: “A universidade não está sendo apresentada como prioridade nacional”
- Penildon Filho: “É possível ter uma gestão boa e proativa para captar recursos”
Fernando questionou João Carlos das razões pelas quais ele estaria se candidatando novamente à reitoria, sugerindo que cuidasse de questões pessoais e abandonasse o pleito. O candidato também perguntou se as propostas defendidas durante a campanha não foram implementadas nos últimos 12 anos em que João Carlos Salles e seu sucessor Paulo Miguez estiveram à frente da gestão da UFBA.
Em resposta, João Carlos Salles afirmou que, apesar de terem integrado a mesma gestão, existem diferenças entre os projetos defendidos pelo candidato. “Nós não somos do mesmo grupo”, declarou.
João também defendeu maior transparência na comunicação da universidade sobre os recursos captados. “A UFBA tem obrigação de usar a comunicação institucional para mostrar quem recebe recursos. Tenho certeza que os bons pesquisadores têm orgulho dos recursos que são capazes de captar”.
TERCEIRO BLOCO
Os candidatos responderam a três perguntas da comunidade acadêmica. Entre os temas estiveram: comunicação e relação entre os setores da universidade, aceitação dos resultados eleitorais e a relação entre a lei do arcabouço fiscal e o piso da educação.
QUARTO BLOCO
Confira na íntegra o discurso final de cada um dos candidatos:
João Carlos Salles afirmou que a chapa tem um projeto claro que envolve toda a UFBA.
“Nós somos servidores, nunca serviçais. Defenderemos a UFBA e sua altivez diante de governos, de partidos, sindicatos e do mercado. Somos aqueles que elaboram as verdadeiras perguntas, não apenas respondemos perguntas externas, nós somos uma UFBA autônoma.
Vamos atrás de parcerias, sim, de todos os convênios, mas nunca renunciaremos ao essencial da disputa da educação como prioridade nacional, inclusive no orçamento. Não seremos apenas gerentes, senhores da universidade, somos representantes de uma comunidade. Não dependemos de amizades políticas e, na relação que temos com todos os partidos, não vamos cobrar emendas, porque nenhum indivíduo consegue emendas isoladamente. Quem consegue emendas é a gestão, é a universidade pública.
Somos representantes de uma instituição forte, de alcance nacional e internacional. Nós não podemos amesquinhar a importância da Universidade Federal da Bahia nesse cenário. É a Universidade Federal da Bahia que está sendo chamada, não são salvadores, quaisquer gestores, senhores para salvar a universidade. Quem vai salvar a Universidade Federal da Bahia é a nossa comunidade. Somos nós que somos UFBA. Somos representantes de uma força que não há de ser silenciada.
Esse prédio sempre exibiu, nas sacadas do salão nobre, bandeiras em defesa da universidade pública. No tempo da covid, denunciamos a política genocida de Bolsonaro e colocávamos faixas dizendo exatamente isso, denunciando todo o atentado, todo o obscurantismo.
Nós, nesse prédio, que é um prédio sagrado, somos UFBA, não há de permitir que coloquem uma faixa nessa reitoria dizendo ‘fazemos qualquer negócio’.
A UFBA é coisa séria. Somos UFBA.”
Penildon Silva Filho agradeceu à plenária presencial e virtual e destacou o amadurecimento do processo eleitoral.
“Quero dizer o seguinte: nós temos aquilo que nos unifica. Nós todos estamos a favor da universidade pública e gratuita, todos nós somos a favor do orçamento público. E querer colocar uma divergência nesse ponto, eu acho que é má-fé.
Agora nós temos coisas que nos diferenciam mesmo. Nós compreendemos que a Universidade Federal da Bahia, seguindo o legado de Anísio Teixeira, de Darcy Ribeiro, da UnB quando foi criada em 1961, ela tem que ter relação com o projeto de nação. E nós compreendemos que nosso projeto de nação é uma democracia substancial, é a democracia material, é a defesa dos direitos sociais, econômicos e culturais da população. Não são somente os direitos formais, civis e políticos.
A universidade tem compromisso com a sociedade. A universidade pública de Anísio Teixeira tem compromisso em resolver o problema da fome, da miséria e da desigualdade social. E nós dizemos: hoje também temos o compromisso de enfrentar a questão do colapso ambiental. Temos que ter o compromisso de debater a mudança na geopolítica, em que o Brasil tem um papel fundamental nessa liderança do sul global. Temos que discutir o impacto da inteligência artificial sobre a educação e também sobre o mundo do trabalho.
A nossa universidade não é somente a universidade que vai reivindicar mais orçamento. Ela vai fazer isso, mas nós queremos mais. É por isso que somos Mais UFBA. É isso que nos diferencia. Então, o nosso papel aqui vai ser reivindicar mais orçamento, mas vai ser estar do lado da população brasileira, inclusive criticando políticas públicas, apresentando alternativas, apresentando novos caminhos.
E isso não tem nada de demérito, isso não se trata de desvirtuar a instituição pública. Isso se trata de ter uma concepção de universidade imbricada com um projeto de nação, com um projeto de Estado. Caminharemos para a vitória, vamos ganhar. Viva a democracia, viva a pluralidade.”
Salete Maria da Silva destacou o momento histórico do debate e se dirigiu diretamente à comunidade que acompanhava de casa.
“Agradeço a audiência presencial e a audiência virtual. Destaco que nós estamos num momento histórico, porém, um momento de discutir não apenas propostas, mas também o processo eleitoral em si, que demonstra exatamente as desigualdades estruturais que impedem que mulheres e pessoas negras ousem concorrer à alta administração central da nossa universidade.
Eu estou me dirigindo agora a você que está em casa, para que não se intimide com essas claques, com esses ruídos. Mais de 80% da nossa comunidade acadêmica, nas últimas consultas, não sufragou, não compareceu às urnas, por entender que era um jogo de cartas marcadas, por entender que era uma farsa, era uma consulta que visava unicamente legitimar as hegemonias, as oligarquias que tentam se perpetuar.
Mas agora nós temos uma eleição direta, podemos virar esse jogo. Me dirijo a você que, na alcova, no silêncio, colaborou comigo. Nosso projeto foi elaborado em mais de sete anos, ouvindo as vozes dissonantes, os silenciados, os revitimizados, os preteridos, os isolados dessa instituição, dentre os quais eu me incluo.
Lamento muito que o nosso voto não seja universal. Lamento muito que a cédula de papel impere.
Peço a vocês que nos ajudem a ecoar a nossa voz. Peço a vocês que nos ajudem a fazer chegar mais longe as propostas de quem efetivamente vem há anos ocupando a frente da reitoria para denunciar a violência institucional.
E quero dizer a vocês que eu estou provisoriamente locada na Escola de Administração, após ser perseguida durante dez anos na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.
E eu espero que, como reitora, eu possa implementar políticas públicas voltadas à transformação dessa realidade. E uma dessas políticas é transformar as ouvidorias geral e da mulher em um órgão autônomo e independente frente a qualquer autoridade universitária, para garantir a confiabilidade e também o fim do conflito de interesses. Todo mundo diz que quer mais mulheres no poder, mas quem de fato quiser, é só mulher eleger. No entanto, o velho pacto patriarcal permanece.”
Fernando Conceição classificou o próprio debate como uma vitória parcial de sua chapa e convocou a comunidade a confrontar as trajetórias dos candidatos.
“Eu acho que a gente deveria, na hora do voto, confrontar as trajetórias dos candidatos e das candidaturas.
Qual é a trajetória de João Carlos Salles? De privilégios, evidentemente. Porque essa é uma sociedade de privilégio branco. Qual é a trajetória de Penildon Silva Filho? Filho de Penildon Silva, que foi inclusive pró-reitor daqui. Trajetória de privilégio.
Qual é a trajetória deste que vos fala? Tomando porrada para não ser expulso do Calabar, organizando o movimento de favelados no nosso país, organizando o movimento pró-cotas de forma inédita, sendo inclusive preso por isso, organizando o movimento de reparações para os afrodescendentes. Essa é a minha trajetória.
Qual é a minha produção acadêmica e científica? Analisem os currículos Lattes de cada um. Vejam em quem votar não pelos olhos azuis, mas devido aos méritos. Era isso que deveria estar em jogo na escolha do reitor de uma instituição acadêmica: a contribuição que cada um de nós tem dado, na nossa vida, à sociedade baiana, essa sociedade apartheidiana que é a sociedade baiana.
Qual o comprometimento que temos com essa grande massa de excluídos? Mas não o comprometimento da boca para fora, não. É a trajetória de luta, é o pé no chão. São os abusos que nós temos sofrido no decorrer da nossa vida e da nossa história. Isso deveria estar em jogo na escolha: confrontar a trajetória, a produção de cada um deles.”
Diego Rocha
Jornalismo Integrado I – GCOM0035
Aluno do segundo semestre de Jornalismo. Diretor Administrativo da Atlética Athena de Comunicação, Coordenador de Comunicação na Liga das Atléticas da UFBA (LAUFBA) e Secretário de Audiovisual no Nexo Governamental XI de Agosto (USP).
Yasmine Braz
Jornalismo Integrado I – GCOM0035
Estudante do 2º semestre de Jornalismo na UFBA com atuação em gestão de mídias sociais e comunicação.

