A conferência traz o título ‘Quilombo dos Quilombos’ e planos de “aquilombar” a UFBA
Por Luan Vítor Evangelista

A permanência na universidade foi apontada como a maior dificuldade pelo CODEQUI. As dificuldades dos quilombolas interioranos em se adaptarem à cidade, somadas à ausência de auxílio financeiro ou políticas afirmativas eficientes, tornam a continuidade dos estudos na academia um grande desafio.
Realizada nos dias 5 e 6 de dezembro, a segunda edição do Seminário Quilombola da UFBA, organizado pelo Coletivo de Quilombolas da universidade, contou com a presença de lideranças acadêmicas, estudantis e políticas. A deputada estadual Olívia Santana (PCdoB), foi convidada mas não compareceu ao evento, alegando problemas no trajeto.O evento abordou as vivências dos estudantes quilombolas nas universidades públicas da Bahia e foi marcado por histórias de luta por direitos e equidade. Os debates trataram de questões que afetam os quilombolas antes e depois de conquistarem suas vagas na academia. O principal ponto discutido ao longo dos dois dias foi a implementação de políticas afirmativas para esse grupo específico.
De acordo com IBJE, a Bahia, que concentra a maior população quilombola registrada no país, teve destaque nas apresentações das ações realizadas pelo coletivo para combater a evasão desses estudantes e garantir bolsas e benefícios. Segundo a representante quilombola na PROAE, em 2024, a bolsa permanência para estudantes indígenas e quilombolas foi reajustada em 55%, passando de R$ 900 para R$ 1.400.Contudo, não há nenhum tipo de auxílio para o deslocamento dos quilombos até as universidades. Assim, o valor é utilizado para alimentação, transporte e outras despesas. Além disso, nem todos os estudantes conseguem ser contemplados pela bolsa, já que é necessário manter um alto coeficiente de rendimento acadêmico para ter acesso ao benefício
Na abertura do evento, realizada no salão nobre da Reitoria da Universidade Federal da Bahia, compuseram a mesa a coordenadora-geral do Coletivo de Quilombolas, Larissa Soares; o professor substituto da Escola de Teatro da UFBA, Monilson dos Santos; o professor Ygor Ramos, da Faculdade de Farmácia da UFBA; a coordenadora da CAAED, Juliana Marta; a representante da SEPROMI, Suzane Sales; e o vice-reitor da universidade, Penildon Silva Filho. O reitor Paulo Miguez fez uma breve intervenção no início do evento, celebrando a abertura do seminário.
Eu sinto que a gente tem avançado muito. Tem vários estudantes quilombolas que estão se formando, saindo da universidade com seus diplomas, que era nosso sonho inicial. Outros estão entrando, então a gente está influenciando que outras comunidades, que outras pessoas das comunidades, venham para a universidade. Se a gente está conseguindo permanecer, outras pessoas também conseguem”, contou Larissa Soares estudante de Medicina.
Os 20 anos de políticas afirmativas para alunos quilombolas foram celebrados com destaque aos avanços conquistados, tanto na sociedade quanto na academia. Entre os marcos, ressaltaram-se a eleição da primeira vereadora quilombola em Salvador e o aumento do número de vagas destinadas aos estudantes quilombolas, que passou de 90 para 250 no último ano.

No segundo dia do evento, realizado no auditório do Instituto de Biologia da UFBA, foram convidadas lideranças estudantis e de movimentos sociais, além da vereadora eleita Eliete Paraguassu (PSOL) e a breve participação do Coordenador-Geral de Políticas para a Juventude do Governo do Estado, Nivaldo Millet, que discursou sobre a importância do evento e o empenho do governo da Bahia em incentivar e apoiar novas iniciativas através do SouJuvs.
Primeira vereadora quilombola eleita na capital baiana, Eliete Paraguassu, em seu discurso no seminário, exigiu reparação por todos os anos de invisibilidade. Ela destacou a felicidade de ser a primeira, mas também a tristeza de ser a única marisqueira na Câmara Municipal.

A vereadora denunciou as ameaças sofridas pelas populações quilombolas do Recôncavo Baiano por parte das grandes indústrias, que exploram as áreas próximas a esses territórios, causando danos ao meio ambiente, invadindo regiões preservadas e atentando contra a vida e o bem-estar de toda a comunidade local. Ressaltou ainda a importância de os jovens estudantes não esquecerem suas raízes, para que lutem dentro e fora da universidade pela manutenção de sua cultura.
“A universidade tem uma estrutura de cooptação dessas lideranças. Vocês não podem cair nessa armadilha de ‘esquecer’ sua essência e suas raízes, de voltar para o seu território, porque foi essa a tarefa que nossos ancestrais deixaram para a gente. Então, a gente precisa estar com o pé no chão.”, afirmou a vereadora.

