Egressos da escola de teatro reapresentam espetáculo indicado quatro vezes ao Prêmio Braskem

Montagem da Cia Baiana de Teatro Brasileiro adapta tragédia de Chico Buarque com protagonismo de uma mulher preta e periférica do Subúrbio Ferroviário

Em cartaz até domingo (11) no Teatro Martim Gonçalves, a montagem de Gota d’Água marca a reta final de apresentações dos egressos da Escola de Teatro da UFBA. Com direção da Cia Baiana de Teatro Brasileiro, a adaptação oferece um novo olhar à tragédia de Chico Buarque, ao colocar no centro da narrativa uma protagonista preta e periférica do Subúrbio Ferroviário de Salvador, perspectiva ausente na versão original.

Com quatro indicações ao Prêmio Braskem de Teatro e 13 ao Prêmio Cenym, elenco e direção retornam à universidade onde se formaram para apresentar o espetáculo. A volta à UFBA simboliza uma devolutiva dos saberes construídos em sala de aula. “Levar essa peça para um espaço universitário é reafirmar nosso compromisso político e social com a arte. E mais importante ainda é ver um público diverso assistindo, não só estudantes ou pessoas do teatro, mas gente de vários lugares. Queremos que saiam inquietos, discutindo, pensando sobre isso”, afirma o diretor Vinícius Lírio. 

Na adaptação de Gota d’Água, a protagonista Joana é retratada como uma mulher negra, mãe solo e moradora do Subúrbio Ferroviário de Salvador, que vê sua vida desmoronar após ser traída e abandonada por Jasão. Sua trajetória, marcada por dor, resistência e solidão, simboliza a luta de inúmeras mulheres que enfrentam diariamente o abandono, a invisibilidade e a desigualdade social. A relevância dessa abordagem se intensifica diante de dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), que indicam que, entre 2012 e 2022, o número de mães solo no Brasil cresceu em 1,7 milhão, sendo 90% desse aumento composto por mulheres negras. Para Vinícius Lírio, diretor da montagem, o ambiente universitário exige atenção ao compromisso político e social da arte. “É fundamental trazer essa reflexão para a cena. A experiência de uma mulher preta no mundo é diferente”, afirma.

Evana Jeyssan, vencedora do Prêmio Braskem em 2022 como Melhor Atriz pelo papel principal, afirma ter mergulhado em referências pessoais para construir a personagem: “A maior inspiração para essa personagem veio da minha mãe, da minha avó e das mulheres ao meu redor. Quando minha mãe assistiu à peça, ela disse: ‘Evana, você tá me imitando’. Foi o melhor elogio que já recebi. Não precisei buscar referência fora, a gente já é essa mulher, a pesquisa somos nós”.

A construção corporal dos personagens partiu de vivências reais e da observação atenta do cotidiano baiano. Para adaptar o clássico ambientado originalmente no Rio de Janeiro, o elenco mergulhou na realidade do Subúrbio Ferroviário de Salvador, visitando o Porto das Sardinhas e o bairro de Plataforma. “Observamos os gestos, os movimentos, a mariscada. Trouxemos isso pro corpo em cena, para que tudo partisse do real”, explica Augusto Nascimento, co-diretor e intérprete de Jasão.

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