Conheça iniciativas que levam saberes tradicionais à produção de conhecimento na universidade 

Projeto Cartas Indígenas ao Brasil | Foto: Suzane Lima Costa

 

Por Malu Haydee

 

Os saberes das comunidades tradicionais têm atravessado cada vez mais os espaços da Universidade Federal da Bahia (UFBA), seja por meio de projetos de extensão, disciplinas, eventos culturais ou pela presença ativa de estudantes e pesquisadores vinculados a esses territórios. Mais do que objetos de estudo, quilombolas, povos indígenas e de terreiros, ribeirinhos, entre outros, tensionam a lógica acadêmica tradicional de lecionar e propõem novas formas de produzir ciência.

Ana Lúcia Souza, socióloga e docente do Bacharelado Interdisciplinar de Artes, questiona a maneira como esses conhecimentos são tratados na universidade. “Creio que a universidade ganha muito quando reconhece que esse saber está. Se a gente tem estudantes negros de comunidades mais longínquas ou que estão em comunidades que têm esses saberes tradicionais, quando eles chegam, trazem isso no corpo. A grande questão é que, muitas vezes, esse acervo de cultura e política fica subsumido. A universidade sistematiza a ciência”, comenta. 

Ao questionar a ideia de que o conhecimento parte exclusivamente da universidade, a professora destaca que esses saberes já existem no cotidiano estudantil, cabendo à instituição reconhecê-los como legítimos. Para ela, esse reconhecimento, no entanto, não deve se limitar ao campo simbólico, mas se desdobrar em transformações concretas, como mudanças curriculares e maior incidência nas estruturas de poder.

O Notícias da UFBA selecionou três iniciativas que mostram como o saber tradicional tem feito a diferença no ambiente acadêmico. Confira!

Fórum Negro de Arte e Cultura | Foto: Malu Haydee

 

FÓRUM NEGRO DE ARTE E CULTURA – Realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC), o Fórum Negro de Arte e Cultura é um exemplo recente de como esses saberes ocupam a UFBA. Em sua oitava edição, durante três dias de evento em março, artistas, pesquisadores e estudantes estiveram envolvidos em uma programação voltada à valorização das epistemologias afro-diaspóricas, reforçando o papel da universidade como território de encontro entre diferentes formas de conhecimento.

“Espero que as pessoas saiam com a mente mais aberta, com os sentidos mais aflorados para o que a nossa cultura tem para oferecer”, comenta a mestranda de Artes Cênicas e monitora do fórum, Fernanda Nascimento.

Projeto "Semeando Ciência" da rede Kunhã Asé | Foto: Luisa Maria Viegas

 

KUNHÃ ASÉ – Criada a partir de um projeto de extensão vinculado ao Instituto de Biologia, a rede Kunhã Asé reúne mulheres e grupos historicamente sub-representados no ambiente estudantil, promovendo o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes de comunidades tradicionais. Por meio de ações em escolas, participação em eventos e construção coletiva de pesquisas, a Kunhã Asé busca ampliar o acesso à ciência e, ao mesmo tempo, reforçar práticas baseadas na decolonialidade do saber dentro dos modelos de ensino. 

“Um dos nossos projetos é o ‘Semeando Ciência’, que foca em escolas, normalmente em comunidades tradicionais ou em comunidades em vulnerabilidade social, para promover discussão sobre questões de grupos sub-representados e empoderamento”, explica a professora e fundadora do projeto, Luisa Maria Viegas. 

Projeto Cartas Indigenas ao Brasil | Foto: Natália Lima Simões

 

CARTAS INDÍGENAS AO BRASIL – Coordenado pela professora Suzane Lima Costa, do Instituto de Letras, o projeto reúne mais de mil cartas escritas por autores indígenas, organizadas a partir de um trabalho coletivo de pesquisa e curadoria. O acervo contempla correspondências de diferentes períodos históricos — do século 16 à contemporaneidade — e tem como principal objetivo dar visibilidade política às vozes indígenas, evidenciando suas formas de expressão, reivindicação e comunicação com o Estado e entre seus próprios povos. As cartas são disponibilizadas com suas escritas originais preservadas, reafirmando a autoria e a legitimidade desses registros.

“É mais do que pesquisa, é algo para a minha formação como indivíduo”, comenta Edson Pereira, estudante de Letras Vernáculas com Língua Estrangeira Moderna e ex-bolsista da iniciação científica.

CONHECIMENTO – De acordo com a bióloga e fundadora da rede Kunhã Asé, Luisa Maria Viegas, a universidade ainda opera sob uma lógica eurocêntrica que hierarquiza conhecimentos e estruturas acadêmicas. Ela defende que integrar saberes tradicionais é fundamental não só para democratizar a produção científica, mas também para enfrentar problemas a partir de múltiplas perspectivas.

A universidade, de acordo com a professora, ainda está longe de alcançar uma integração plena entre diferentes formas de conhecimento, especialmente no que diz respeito à transdisciplinaridade — a capacidade de ir além dos modelos tradicionais de produção científica e dialogar com outros atores sociais. Ainda assim, destaca que esse debate tem ganhado espaço e já apresenta avanços em departamentos e cursos.

Acompanhe nas redes sociais as iniciativas que levam saberes tradicionais à universidade 

2 thoughts on “Conheça iniciativas que levam saberes tradicionais à produção de conhecimento na universidade 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *