Jornalistas Adriana Oliveira e Fernando Sodake participam de aula na Faculdade de Comunicação da UFBA | Foto: João Macedo
Por Giulia Sodré e Giovanna Biani
Os jornalistas Fernando Sodake e Adriana Oliveira conversaram, na terça-feira (26), com os alunos do primeiro e segundo semestre de jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA (Facom). Com décadas de experiência no mercado de trabalho, ambos são conhecidos pela atuação na Rede Bahia: Sodake como apresentador e Adriana como repórter. O encontro ocorreu das 9h às 12h com cerca de 40 estudantes das disciplinas “Introdução ao Texto Jornalístico” e “Introdução às Práticas Jornalísticas”, ministradas pelos docentes Eder Luis Santana e Graciela Natansohn, respectivamente.
Adriana destacou a relevância dos profissionais que atuam na produção e são responsáveis pela apuração de informações e estruturação das pautas no telejornalismo. Função tida como crucial na elaboração das notícias, exige dedicação, agilidade e disposição para jornadas intensas de trabalho. “O produtor é o primeiro repórter. Ele vai apurar, não é só um marcador de entrevista”, afirma a jornalista.
Além disso, a produção é a porta de entrada para muitos recém-formados no mercado de trabalho, o que significa amplo volume de tarefas para profissionais com menos experiência e menor remuneração. Nesse contexto, Sodake chamou atenção para a pouca valorização dos produtores. “Hoje, se você fizer uma avaliação da redação, quem mais adoece é a produção. Às vezes um só produtor tem que dar conta de um jornal inteiro. Isso é muito desgastante e humanamente injusto, principalmente para quem está saindo da faculdade”, comentou.
Mesmo com as dificuldades da profissão, Sodake e Adriana aconselham os jovens jornalistas a vivenciarem variados cargos da área. “A melhor chance que a gente tem de aprender, quando falamos de jornalismo, principalmente na televisão e rádio, é passar por todas as funções”, recomenda o apresentador. Além de experiência dentro do ambiente de trabalho, os jornalistas ressaltaram que para se tornar um bom apurador é importante buscar pela verdade, desconfiar das informações recebidas e adquirir conhecimento que abranja todas as áreas, não apenas de interesse individual.
Adriana aconselhou os futuros jornalistas a se atentarem à necessidade de evitar a espetacularização de situações sensíveis, já que muitas coberturas atualmente buscam o engajamento por meio da exibição de violência. “Essa linha entre o que a gente noticia e o que é espetáculo é muito tênue”, afirmou. A jornalista relacionou essa situação com a ideia sociológica de que a “indústria do medo” — conceito que descreve a atração do público pelo drama do sofrimento humano — está por trás do apelo comercial desse tipo de jornalismo.
ATUAÇÃO – A saúde mental dos profissionais também foi abordada. De acordo com a pesquisa “Perfil do Jornalista Brasileiro”, divulgada em 2021 pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), 34,1% dos trabalhadores da área são diagnosticados com estresse clínico. Foram coletadas sete mil respostas no estudo.
Adriana enfatizou a importância de reconhecer os limites entre a vida profissional e pessoal para a manutenção da saúde física e emocional. “Ao longo da caminhada, muitas coisas vão acontecer, e esse acúmulo pode resultar em burnout, ansiedade ou depressão”, afirmou quando questionada sobre adoecimento dos jornalistas. “Tem determinados momentos nos quais a gente precisa reconhecer os sinais do nosso corpo para impor um limite”, explicou.
Apesar do panorama apresentado, Sodake diz ter expectativas positivas para o futuro das relações de trabalho. “Vocês vão receber um mercado melhor. Graças a uma melhor visão de mercado, principalmente uma melhor compreensão de que nós dependemos da nossa saúde mental, que as empresas hoje estão mudando. Não estou dizendo que elas chegaram no ponto ideal, acho que ainda não chegaram, mas são bem melhores”, comenta o jornalista.
ESTUDANTES – Para os estudantes presentes, a conversa foi a possibilidade de aprender com profissionais de referência. “Acredito que estar em contato direto com profissionais de prestígio tem uma magia. Fiquei encantada em conhecer a realidade da profissão através dos relatos. Foi uma oportunidade surreal, porque a gente passa a se sentir mais próximo da profissão”, diz a caloura Elvira Rosa.
No caso de Allison de Jesus Machado, estudante do segundo semestre, a conversa o acalmou sobre seu futuro profissional. “Esse contato direto com pessoas que estão no jornalismo há um tempo traz tranquilidade, porque nos convence que é possível um bom futuro nessa carreira”, relata.
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Excelente abordagem e esclarecimentos sobre uma profissão essencial e necessária cada vez mais em uma sociedade sedenta da informação verdadeira, onde boa parte desconhece os desafios reais dos profissionais que sao desvalorizados em um mundo cada vez mais polarizado.