UFBA registra 91 denúncias de assédio moral em dois anos

Em 2025, o assédio moral foi o segundo assunto mais demandado à Ouvidoria da Universidade | Foto: Vinícius Andrade Juliano

 

Por Vinícius Andrade Juliano

 

A Universidade Federal da Bahia (UFBA) registrou 91 denúncias de assédio moral entre janeiro de 2024 e dezembro de 2025,  uma média de quase quatro por mês, segundo levantamento feito no Painel Resolveu, da Controladoria-Geral da União (CGU). Até 13 de setembro de 2026, o painel contabilizava outros 30 registros. Os números representam denúncias recebidas pelos canais institucionais e não correspondem, necessariamente, a casos comprovados.

Nos últimos anos, o assédio moral aparece entre as principais demandas registradas pela Ouvidoria da UFBA. Segundo dados do Relatórios de Gestão da instituição, entre 2019 e 2023, o assédio moral não apareceu entre os cinco assuntos de maior demanda dos relatórios consultados. Em 2024, entrou no grupo pela primeira vez, ocupando a quarta posição com 43 manifestações e, em 2025, alcançou o segundo lugar com 47 registros, atrás apenas das denúncias classificadas como Educação Superior.

A análise das denúncias envolve uma articulação entre a Ouvidoria e a Corregedoria da UFBA. A Ouvidoria recebe e faz a análise inicial das manifestações, enquanto casos com elementos para apuração podem ser encaminhados às unidades competentes. No Relatório de Gestão de 2025, elaborado sob coordenação da Pró-Reitoria de Planejamento e Orçamento (Proplan), houve  uma  ampliação dessa articulação para analisar previamente as demandas e identificar possíveis ilícitos disciplinares.

Banco vermelho em frente ao restaurante universitário de Ondina pertence a campanha de enfrentamento à violência contra a mulher | Foto: Vinícius Andrade Juliano

 

Crime

De acordo com o Guia Lilás, documento elaborado pela Controladoria-Geral da União (CGU), o assédio moral envolve condutas abusivas que atingem a dignidade ou a integridade física e psicológica de uma pessoa, podendo se manifestar por humilhações, constrangimentos, isolamento e difamação. O documento ressalta que nem todo conflito interpessoal configura assédio e que a avaliação depende das circunstâncias de cada situação.

É justamente nessa caracterização que a corregedora da UFBA, Adriana Souza Silva, identifica uma das principais dificuldades enfrentadas durante a análise das denúncias. Segundo ela, algumas manifestações chegam sem elementos suficientes para sustentar uma apuração, enquanto outras descrevem conflitos ou comportamentos inadequados que não necessariamente configuram assédio.

A distância entre o episódio e o registro também pode dificultar a apuração. Silva explica que relatos feitos muito tempo depois podem apresentar menos detalhes e dificultar a reconstrução dos acontecimentos. Por isso, destaca a importância de registrar as situações o mais próximo possível do momento em que ocorrem.

A presença crescente do assédio moral nos registros, no entanto, não significa necessariamente que esse tipo de violência tenha aumentado na mesma proporção. Para a corregedora, a ampliação dos mecanismos de acolhimento e prevenção pode contribuir para que mais pessoas reconheçam determinadas situações como assédio e procurem os canais disponíveis, com as novas iniciativas também ampliando a capacidade da instituição de identificar e lidar com essas demandas.

 

Dificuldades em denunciar

A existência desses mecanismos, porém, não significa que sejam conhecidos por todos os estudantes. Aluna de Engenharia Química da UFBA, Yasmin Cavalcanti, 23 anos, afirma que não saberia a qual setor recorrer formalmente caso passasse por uma situação de assédio ou discriminação.

“Muito provavelmente recorreria ao meu centro acadêmico se houvesse relação com um profissional da UFBA. Para o caso de abuso partindo de aluno, não saberia”, diz.

Yasmin também avalia que, embora a convivência na universidade seja geralmente respeitosa, há professores que ultrapassam os limites de sua autoridade, inclusive com ameaças de reprovação. A estudante aponta situações em que o poder de avaliar o desempenho acadêmico pode ser utilizado para intimidar alunos.

A estudante Bárbara Letícia, 23 anos, está matriculada no Bacharelado Interdisciplinar em Artes e diz ter presenciado comportamentos desrespeitosos nas relações entre professores e alunos e entre orientadores e orientandos.

“Vi casos em que essa relação de poder era dominada por comportamentos esnobes e implicância individualizada”, afirma. 

Corregedoria recebe denúncias de assédio em Reitoria da UFBA | Foto: Vinícius Andrade Juliano

 

Posicionamento da UFBA

Em meio às dificuldades relatadas pelas estudantes, a UFBA ampliou nos últimos anos as estruturas voltadas à prevenção, ao acolhimento e ao enfrentamento dessas situações. Em abril de 2024, foi instituída a Câmara Permanente de Prevenção, Acolhimento e Enfrentamento às Situações de Assédio Moral, Sexual e todas as Formas de Discriminação. A Ouvidoria informou à CGU que atua em parceria com a câmara em ações de prevenção e visitas às unidades acadêmicas.

Em 2025, a universidade criou a Ouvidoria das Mulheres, destinada ao acolhimento de demandas relacionadas às diferentes formas de violência contra mulheres. No início de 2026, abriu a Consulta Pública nº 01/2026 sobre a minuta de uma política institucional de prevenção, acolhimento e enfrentamento ao assédio moral e sexual, ao racismo e a outras formas de discriminação, permitindo a participação da comunidade universitária na formulação da política.

A ampliação dessas estruturas ocorre no mesmo período em que o assédio moral passa a ocupar posições de maior destaque entre as demandas da Ouvidoria. Embora os dados não permitam afirmar um aumento proporcional das ocorrências, eles mostram maior presença do tema nos canais institucionais e o desafio de fazer com que os mecanismos de acolhimento e denúncia sejam conhecidos pela comunidade universitária.

 

Canais de denúncia

Ouvidoria Geral da UFBA: denúncias pelo Fala.BR ou presencialmente na Biblioteca Universitária de Saúde Prof. Álvaro Rubim de Pinho, Rua Basílio da Gama, nº 5, Canela.

Telefone: (71) 3283-7044.

WhatsApp: (71) 8192-8071.

E-mail: ouvidoria@ufba.br.

Ouvidoria das Mulheres: funciona no mesmo local e utiliza os mesmos canais da Ouvidoria Geral.

Câmara Permanente de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio: contato pelo e-mail camara.assedio@ufba.br.

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