Estudantes criam projetos audiovisuais em oficinas de tecnologia imersiva na UFBA

Cúpula de projeção imersiva do planetário foi palco do evento | Foto: Rafael Ramos

Por Rafael Ramos

 

Estudantes de diferentes cursos da Universidade Federal da Bahia (UFBA) participaram de oficinas de criação audiovisual imersiva durante o Seminário de Música Visual Imersiva – Subverso nas Escolas, realizado entre segunda (28) e quarta-feira (30), no campus de Ondina. As atividades ocorreram no Pavilhão de Aulas da Federação (PAF V), com oficinas de produção de música visual, computação gráfica, animação e áudio para ambientes imersivos.

Realizado pelo Laboratório de Música e Arte Sonora (LABMUSAS), do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC), o seminário contou com oficinas de produção de música visual para fulldome — formato de vídeo adaptado para projeção em 360º na cúpula de planetários. A programação também incluiu uma sessão no Planetário da UFBA, com obras projetadas na cúpula do espaço. 

Apesar de o termo fulldome parecer pouco familiar, a música visual propõe uma relação entre som e imagem na qual os elementos visuais também participam da experiência musical. Nessa linguagem imersiva , as imagens ocupam toda a superfície da estrutura circular e contam com acompanhamento de um sistema espacializado. 

Música além dos instrumentos

Professor é Doutor em Composição Musical | Foto: Rafael Ramos

Para o professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências, Professor Milton Santos (IHAC) Cristiano Figueiró, que atua nas áreas de música e tecnologia e é o idealizador do projeto, a iniciativa favorece o trânsito entre diferentes áreas do conhecimento. Música, artes visuais, computação, programação e pedagogia estiveram entre os campos presentes nas atividades.

“É a capacidade de transitar entre diferentes áreas do conhecimento”, destaca. Segundo o professor, a proposta também reúne estudantes em etapas diversas da formação, da graduação à pós-graduação, em um mesmo espaço de pesquisa e criação.

Oficina envolve arte e tecnologia

Tecnologia auxilia na criação musical | Foto: Rafael Ramos

A aproximação entre recursos tecnológicos e linguagens artísticas é um dos eixos das oficinas. Além das ferramentas de produção audiovisual, a atividade apresentou aos participantes diferentes possibilidades de uso de softwares e outras tecnologias no processo de criação.

Para o músico e mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Artes (PROFARTES), Edson Dantas, a atividade parte da relação entre arte e tecnologia e do encontro entre diferentes linguagens artísticas. Na música visual, por exemplo, som e imagem estabelecem uma relação direta na construção da obra.

O uso de novas ferramentas, porém, não garante o resultado artístico. Para Dantas, os recursos tecnológicos ampliam as possibilidades de criação, mas o processo criativo depende das referências e das motivações de cada pessoa.

“A tecnologia não garante o processo criativo, porque o processo criativo é uma coisa única, singular de cada um”, afirma.

As oficinas também apresentaram ferramentas que podem servir como ponto de partida para novas experiências. Segundo Dantas e Figueiró, o objetivo não é exigir que os participantes dominem todas as técnicas ao final da atividade, mas apresentar possibilidades e estimular a continuidade da experimentação.

“É mais para inspirar mesmo. Essa é a ideia”, explica Figueiró.

Da composição à criação imersiva

A atividade teve diferentes significados para os participantes. Giorno Conti, 24 anos, aluno do oitavo semestre do Bacharelado em Composição da Escola de Música, encontrou na oficina uma relação direta com seus interesses acadêmicos e profissionais.

O estudante pretende trabalhar com composição para mídias, audiovisuais e videogames. Atualmente, desenvolve um projeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Extensão (PIBEX) relacionado a uma instalação imersiva, com recursos de áudio e imagem. Para ele, os conhecimentos adquiridos na oficina podem contribuir para esse trabalho.

“Toda técnica de espacialização, de projeção de imagem, de sincronização de vídeo que aprendi aqui, tudo isso vai ser muito útil e  produtivo no meu projeto”, afirma.

Giorno pretende desenvolver outros projetos de extensão durante a graduação e estabelecer parcerias com estudantes de áreas como animação, artes visuais e computação. Ele havia participado de atividades relacionadas à interação entre som e imagem, mas percebeu que os dias na oficina representavam um primeiro contato mais direto com ferramentas de computação gráfica.

Experiência interdisciplinar

Prática abre possibilidades de uso | Foto: Rafael Ramos

Para Maysa Araújo, 18 anos, estudante do segundo semestre do Bacharelado Interdisciplinar em Saúde, a participação surgiu a partir de uma divulgação do IHAC sobre uma oficina de música. O contato com a atividade, porém, apresentou uma dimensão tecnológica que ela ainda não conhecia.

“Gosto bastante de música. Quando cheguei aqui, era mais para a área de informática, e eu não sabia de nada. É uma coisa nova para aprender”, conta.

A experiência também levou Maysa a pensar em possibilidades de aplicação do conhecimento em sua área de formação. A estudante considera explorar a relação entre música, som e saúde em projetos futuros, sobretudo em áreas como terapia e psicologia.

“Acho que hoje em dia a música está muito ligada à área da terapia, da psicologia. […] Poder aprender, manusear, produzir pode influenciar nisso”, afirma.

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Subverso ocupa o Planetário

O “Subverso” é o nome da mostra de música visual que integra o projeto. Segundo o professor do IHAC e idealizador do evento, Cristiano Figueiró, o termo remete à ideia de multiverso e à realidade virtual, mas também propõe uma apropriação diferente de uma linguagem associada ao mercado de tecnologia.

“A gente fez o Subverso como uma multiplicidade de realidades dentro dessa ideia de realidade virtual, na ideia de um ambiente coletivo, de imersão”, explica.

Para o professor, a proposta representa uma forma de deslocar essa lógica para um espaço de liberdade artística, compartilhamento de conhecimento e encontro entre diferentes pessoas.

“É um nome inventado, de subverter, isso para uma liberdade criativa, para uma liberdade de compartilhamento de conhecimentos, de encontros”, afirma.

A mostra chegou ao Planetário da UFBA no encerramento do seminário. O espaço, tradicionalmente associado a atividades de astronomia e divulgação científica, recebeu obras de música visual com projeções na cúpula e áudio imersivo.

Na música visual apresentada no local, a música assume papel central na composição, enquanto a parte gráfica estabelece diálogo com a construção sonora. As obras também fazem referência a elementos como estrelas, constelações e planetas, além de recursos abstratos e geométricos.

Extensão e novas redes

O projeto “Subverso nas Escolas” teve início em 2024, por meio de edital interno de extensão da UFBA, e possui vínculo com o LABMUSAS.

A iniciativa também desenvolve ações com estudantes da educação básica. A ação mais recente ocorreu no Colégio Estadual Manoel Novaes, em Salvador, onde alunos do ensino médio participaram de oficinas de criação musical e visual. As produções desenvolvidas pelos estudantes foram apresentadas no Planetário da UFBA, onde eles visitaram o espaço e assistiram às próprias obras projetadas na cúpula.

O acúmulo dessas experiências resultou no e-book Música Visual Imersiva: uma jornada criativa do som à imagem no ensino médio, com publicação prevista pela Editora da UFBA (Edufba) para o final de 2026.

As obras produzidas no projeto integram o acervo do LABMUSAS, que também divulga novas atividades e chamadas por meio de seus canais e do IHAC.

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