Pesquisa deveria alcançar 90% dos elegíveis, mas atingiu 45,1% | Créditos: coordenação PROAE
Por: Ludmilla Darling
Apenas 45,1% dos estudantes indígenas e quilombolas beneficiários do Programa Bolsa Permanência (PBP) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) responderam ao primeiro levantamento sobre saúde e bem-estar realizado pela universidade. Dos 875 estudantes, 395 participaram da pesquisa, enquanto 480 não responderam. A expectativa dos organizadores era alcançar cerca de 90% dos estudantes ou a totalidade do público.
O formulário foi lançado em 7 de agosto pela Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (PROAE), em parceria com a Coordenação de Ações Afirmativas, Educação e Diversidade (CAED) e a Coordenação de Programas de Assistência ao Estudante (CPAE). O prazo precisou ser prorrogado duas vezes diante da baixa adesão.
O levantamento busca reunir informações sobre a saúde e a rotina dos estudantes indígenas e quilombolas para identificar demandas individuais e coletivas e orientar futuras ações da universidade na área de saúde e bem-estar. A iniciativa surgiu a partir de uma demanda dos próprios estudantes, por meio de coletivos como o Núcleo de Estudantes Indígenas da UFBA (NEI), a União dos Povos e Organizações dos Estudantes Indígenas da UFBA (UPOEI) e o Coletivo de Estudantes Quilombolas (Codequi).
O coordenador da PROAE, Francisco Carlos Santos, explica que o objetivo é produzir informações que permitam uma atuação preventiva da universidade.
“A ideia do levantamento é identificar, do ponto de vista coletivo, qual é a demanda real dos estudantes indígenas e quilombolas”, afirmou.
As informações também poderão contribuir para os atendimentos individuais, ajudando os profissionais a direcionar o acompanhamento e identificar precocemente situações de saúde que possam afetar a trajetória acadêmica e a permanência dos estudantes na universidade.
Por que os estudantes não responderam?
A PROAE ainda não tem uma explicação definitiva para a baixa adesão. Santos afirma que a equipe considera possibilidades como o receio de alguns estudantes de que as informações fornecidas possam interferir na manutenção do benefício, mas ressalta que essa hipótese não foi comprovada.
O Programa Bolsa Permanência (PBP) é um auxílio financeiro do Governo Federal destinado a estudantes universitários de baixa renda. O benefício busca contribuir para a permanência dos estudantes na universidade e reduzir a evasão.
As respostas do levantamento são sigilosas e tratadas de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). O preenchimento do formulário não tem caráter eliminatório ou classificatório e não determina a permanência ou o desligamento do estudante do PBP.
Bolsistas vinculados à PROAE e representantes dos coletivos indígenas e quilombolas ajudaram na divulgação da pesquisa. Mesmo com as estratégias de comunicação e as duas prorrogações do prazo, o número de respostas permaneceu abaixo da metade dos beneficiários.
Para o estudante de Belas Artes Thiago Tupinambá , 25 anos, a baixa participação pode estar relacionada à falta de confiança de alguns estudantes na efetividade das ações da universidade. “Eu sei que não vai ter nenhuma política para isso”, afirma, referindo-se às demandas de saúde e bem-estar dos estudantes.
Tupinambá relata dificuldades para conseguir atendimento de saúde e considera os processos institucionais demorados. A experiência, segundo ele, gera desestímulo para procurar novamente a universidade. O estudante também afirma ter tido dificuldades para acessar serviços de assistência e para compreender como obter atendimento psicológico pela UFBA.
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A percepção, no entanto, não é compartilhada da mesma forma por todos os estudantes. A estudante de Medicina Larissa Soares, 26 anos, representante do Coletivo de Estudantes Quilombolas da UFBA (Codequi), respondeu ao formulário e avalia positivamente a iniciativa.
“Existem diversos estudantes passando por vários atravessamentos e ter apoio e cuidado fazem diferença na formação acadêmica, principalmente quando são alunos quilombolas e indígenas na UFBA”, afirmou Larissa.
Dados ainda serão analisados
Após o encerramento do formulário, a equipe deverá sistematizar e analisar as respostas antes de definir as medidas que poderão ser adotadas. Francisco Carlos Santos, coordenador da PROAE, explica que ainda não há uma ação específica previamente definida, já que as intervenções deverão partir das necessidades identificadas pelo levantamento.
A proposta é cruzar as informações para verificar possíveis diferenças entre estudantes indígenas e quilombolas e observar questões relacionadas aos territórios de origem e às condições de vida. A coordenação também pretende manter o acompanhamento ao longo do tempo, para atualizar os dados e identificarndo novas demandas.
Para a PROAE, o levantamento busca transformar o acompanhamento da assistência estudantil de uma atuação predominantemente reativa em uma estratégia preventiva. A baixa adesão, porém, deixa uma parcela significativa dos beneficiários fora desse primeiro retrato sobre saúde e bem-estar.
Ludmilla Darling
Repórter Notícias da UFBA
Estudante do 2° semestre de Jornalismo, tem interesse em jornalismo documental voltado para cultura de povos e comunidades tradicionais.

