“Alguém aqui já pisou na cadeia para ver ou visitar  um amigo, um irmão, uma irmã. Vocês amam muito o povo, né?”

Carla Akotirene lotou sala da FACOM com uma discussão sobre raça, gênero e punitivismo

Por: Bianca Rosario

Foto: Carla Akotirene em aula aberta / Bianca Rosario

Com um quadro de docentes majoritariamente branco e nenhuma disciplina voltada para questões de gênero, raça ou punitivismo, a Faculdade de comunicação sediou essas discussões na quarta, 21. A sala 11, com local para 65 pessoas, precisou de cadeiras extras que também não foram suficientes, os ouvintes foram para uma aula aberta proposta pela disciplina História do Jornalismo. Carla Akotirene, convidada para ministrar a palestra, manteve em silêncio e atentos estudantes, mestres, doutores e pós-doutores. Ao fim foi acompanhada pelos ouvintes até a entrada da faculdade sob lamentos e pedidos para prolongar a explanação. No mesmo horário acontecia, no auditório, o seminário de 30 anos de jornalismo digital.

Foto: Carla Akotirene sendo acompanhada pelos ouvintes / Bianca Rosario

Doutora em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo, escritora com três livros publicados – “É fragante fojado dôtor”, “O paí prezada” e Interseccionalidade – foi cordeira do Ilê Ayê e assim como muitos estudantes presentes para escuta-la ingressou na federal através de um projeto social, o cursinho pré- vestibular do Instituto Steve Biko. Contou como ao entrar na universidade seu pensamento mudou, segundo ela antes não conseguia se enxergar enquanto mulher preta. Se auto declarava morena escura. Motivando os estudantes, em maioria calouros, falou sobre seu processo no meio acadêmico e a desconstrução pela qual passou. 

Pesquisadora de interseccionalidade, a doutora utilizou analogias para explicar o tema, comparando com uma encruzilhada onde as ruas se encontram. A assistente social chocou os ouvintes ao falar de suas pesquisas sobre o sistema prisional e como acreditava ser desconstruída até ser confrontada com a pergunta se já havia ido a uma cadeia. Ela devolve a pergunta que a fez refletir anos atrás aos que a ouviam. “Alguém aqui já pisou na cadeia para ver ou visitar  um amigo, um irmão, uma irmã. Vocês amam muito o povo, né?”, foi visível no rosto dos ouvintes a reflexão interna que faziam.

Após visitar uma colega de corda do Ilê Ayê, Carla Akotirene decide trabalhar em suas pesquisas sobre o sistema prisional, mas ainda detinha os mesmos preconceitos que acreditava ter deixado de lado. Ela toma conhecimento da sua postura ao ser novamente confrontada, mas agora pelas internas do sistema prisional. Segundo elas, a assistente social dizia ser igual a elas, mas, jamais seria. Enquanto elas eram obrigadas a vestir o uniforme prisional e não ter direito a mudanças de cabelo ou qualquer vaidade, Carla estava sempre bem arrumada, de salto, trocando de penteados constantemente. Com seus relatos pessoais a doutora foi introduzindo conceitos e refletindo sobre as opressões. 

Para a aluna do bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, Elvira Rosa, a palestra era um momento que não podia perder. Mesmo morando longe e não tendo aula no horário, se deslocou até a faculdade de comunicação para ouvir a escritora falar. “Já conhecia o pensamento e obras de Akotirene sobre interseccionalidade e sempre fiquei encantada com sua escrita e contribuições para pensarmos raça e gênero”, destaca a estudante que relata ter ficado encantada. A ideia de convidar a doutora partiu dos próprios alunos, que ao serem questionados pelo professor Fernando Conceição quem gostariam de ouvir, logo destacaram o nome de Carla Akotirene.

Foto: Carla Akotirene em aula aberta / Bianca Rosario

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