Para o autor, “O livro continua com a missão de prender os culpados” 13 anos após o crime

Embora já tenha se passado mais de uma década, o mandante por matar os castanheiros José Cláudio e Maria do Espírito Santo continua foragido. A fim de fomentar a finalização do caso com a prisão de José Rodrigues Moreira, indiciado em 2016 pelo duplo homicídio, o coordenador do Pós-Cultura e professor da UFRB e UFBA, Felipe Milanez, lançou o livro “Lutar com a floresta: uma ecologia política do martírio em defesa da Amazônia”, na sexta-feira (19), em auditório do Instituto de Geociências da UFBA (Igeo).
Milanez contou que a obra foi posterior a outros trabalhos sobre o casal, incluindo uma entrevista com eles ainda em vida. A conversa foi incentivada pelo trabalho ativista de denúncia de extrativismo ilegal que Maria e José Cláudio realizavam em Nova Ipixuna, no Pará. “Eu pretendo com o livro, ajudar a construir uma memória das lutas na Amazônia”, contou ele.

No evento, grupos de pesquisa de dentro e fora da universidade debateram violência ambiental e exploração ilegal de recursos naturais da Amazônia e Bahia. A exemplo, o Laboratório de Gestão Territorial e Educação Popular (MarSol), coordenado por Miguel Accioly, que direciona a discussão sobre Violência Ambiental à Bahia. “É importante entender a Amazônia para entender o que se passa aqui”, disse o professor. Além disso, para ele, esse tipo de crime no estado baiano é mais sutil do que na Amazônia. “Aqui a violência é dissimulada”, comentou.
Para a Professora Maria do Rosário, do Programa de Pesquisa sobre Povos Indígenas (Pineb), os crimes de degradação na Mata Atlântica, cerrado e Bahia de Todos os Santos têm afetado as condições de vida das pessoas que habitam ou protegem esses espaços. “É uma superposição de atividades ilegais que ameaçam a vida das pessoas”, explicou a docente. Ao falar sobre o caso abordado no livro, ela caracteriza como “mortes com requintes de crueldade”. “As pessoas morreram pois estavam ameaçando os grandes”, continuou.

Entenda o caso
José Cláudio e Maria do Espírito Santo foram vítimas de um assassinato seis meses depois do primeiro contato de Milanez, que trabalhou como jornalista para a National Geographic Brasil e entrevistou o casal para uma matéria independente sobre a violência ambiental e o extrativismo na região de Nova Ipixuna, no Pará. Segundo o Tribunal de Justiça do Estado, entre os dois autores do crime estava o irmão do mandante, Lindonjohnson Silva Rocha, condenado a 43 anos de prisão, que fugiu dois anos após a condenação. O outro, Alberto Nascimento, foi sentenciado com um ano a menos que seu comparsa. No entanto, foi internado no Hospital de custódia e tratamento psiquiátrico Santa Izabel, no Pará, onde segue até hoje.
A entrevista se tornou o documentário “Toxic Amazon”, dirigido pelo jornalista em parceria com Bernardo Loyola. As proporções do caso, inclusive, levaram à uma homenagem póstuma da ONU às vítimas, os concedendo títulos de “Heróis da Floresta”. Castanheiro desde os 7, José Cláudio travou uma luta em defesa ao assentamento. “Eu vivo com a bala na cabeça”, disse ele em entrevista. Com a mesma garra, Maria do Espírito Santo esteve ao lado do marido denunciando a exploração ilegal de carvão e madeira mesmo com a represália que recebiam. “O impulso que eu tenho quando vejo uma injustiça tira o medo”, relatou ela.

