Territórios ex-Cêntricos: Estudos de Milton Santos mobilizam o Seminário Urbanismo na Bahia na FAU

Salvador sedia nova edição do urbBA que teve como tema a construção da ex-centricidade.

Andresa Correa 

Sessão temática na tarde da quinta. Foto: Danilo Silva

Ponta do Humaitá, Porto da Barra, Pelourinho e as grandes avenidas do atual centro econômico de Salvador, são imagens consolidadas no imaginário social da cidade, mas não dão conta das variadas realidades urbanas existentes para além de interesses hegemônicos. A 13a edição do urbBA (23), realizada na Faculdade de Arquitetura pelo grupo de pesquisa Lugar Comum, na última semana, teve como plano de fundo a capital inspiradora de possibilidades mais democráticas e plurais, e retomou a discussão do território como lugar de existência e resistência da sociedade, iniciada por Milton Santos, em 1994.

Entre os dias 07 e 09, o tema geral deste ano, ‘Territórios ex-Cêntricos: sujeitos, ações, interface’ repensou a perspectiva de locais que são normalizados, de forma negligente, como informais, isolados, ou, até mesmo, à margem de uma cidade, para entender outras formas de relações e constituição de sociabilidades, em busca de realização plena de seus direitos.

Norteado por quatro eixos temáticos sobre reformulação conceitual, política urbana e regulação, ação política, e práticas de formação e articulação, contou com a presença de pesquisadores de universidades internacionais da Bolívia, Inglaterra e Johanesburgo, como também de universidades brasileiras, a UEFS, UFRB, UFRJ e USP, nas mesas, conferências e sessões temáticas concretizadas de forma on-line e presencial.

“Não estamos falando de ex-centricidade no sentido de algo exótico ou espetaculoso. É uma disputa com a ideia de centro, em função de uma insatisfação com os modos como a política pública e os processos de construção de conhecimento, sobretudo, hegemônico, tratam determinadas realidades urbanas como se elas não fossem legítimas. Estamos tentando entender outras formas de legitimidade, que carreguem outros valores com elas, particularmente vinculadas com movimentos que dizem respeito a luta antirracista, a igualdade de gênero, e a questão ambiental”, explica a professora Ana Fernandes, coordenadora do grupo de pesquisa Lugar Comum e do Seminário.   

Na sessão do terceiro dia, 09, coordenada pelo consultor na área de Direito fundiário rural e urbano, o professor da UEFS, Paulo Torres, os artigos ‘Pensar Cidade: Gênero, o limite, e as propostas de Mobilidade Urbana para a cidade de Salvador (PlanMob)’, da pesquisadora Claudia Puzzuoli, doutoranda na FAU e docente na UNIME, e ‘Disputas e discricionariedade do Estado na consecução do Conselho Gestor de ZEIS na PPP Habitacional das Comunidades do Violão, Zona Norte de São Paulo’, de Amanda Silber, pesquisadora do LabCidade da FAUUSP, ambas de São Paulo, foram apresentados.

Puzzuoli trouxe a questão da Mobilidade Urbana, a partir do  estudo das calçadas da cidade de Salvador e suas intempéries. O deslocamento poligonal (a incidência de diversos pontos acessados no percurso) vivenciado pelas mulheres em sua rotina, foi outro ponto. Com esse termo, a ideia do pendular (simplesmente sair de um lugar para chegar em outro), se amplia e é possível visualizar a necessidade de percorrer variados locais, entre casa, creche, mercado, farmácia, até o seu destino final. A escolha da caminhada é vista sob um aspecto de confluência de diversos agentes sociais, como limpeza urbana e segurança pública.

Já Silber, sobre a utilização de áreas públicas por iniciativa privada, expôs a luta das Comunidades do Violão, na Zona Norte de São Paulo, frente à ameaça de remoção das famílias e implementação de um parque linear pela prefeitura. De acordo com a pesquisa do LabCidade, a partir do edital da Parceria Público Privada (PPP), uma indenização é proposta, porém mediante requisitos fora da realidade dessas pessoas, como comprovante de renda e critérios bancários.

“Falar sobre as violências é muito doloroso, mas é necessário para causar transformação”, a pesquisadora reconhece.

Como Zonas Especiais de Interesse Social, as comunidades possuem um Conselho Gestor com a participação de lideranças comunitárias, que, com o voto de minerva, obtiveram uma vitória significativa recente.

A adesão às temáticas com a proposição de trabalhos foi um ponto de sucesso para a coordenadora Ana Fernandes. Segundo a professora, a primeira conquista do Seminário foi a própria realização, que, mesmo com recursos reduzidos, alcançou a receptividade do público-alvo — contribuindo com a “luta pela vida” como dado em perspectiva.

A representatividade desses espaços também foi conferida com a inclusão de pessoas que os vivenciam, a exemplo do José Eduardo, do Acervo da Laje, e do Cacique Babau, liderança indígena Tupinambá, além da seleção dos monitores para o Seminário. A mestranda Laila Souza, parte da comissão organizadora junto ao Lugar Comum, que pesquisa sobre a comunidade de Jardim Mangabeira, em Cajazeiras, associando-a à expansão periférica de Salvador, foi quem coordenou a execução.

 “O processo seletivo foi feito tanto para a graduação, quanto para o ensino médio-técnico. Estava com muita expectativa de trazer a contribuição dessas pessoas para o urbBA. Houve três inscrições do ensino médio, mas não compareceram na entrevista. Por outro lado, tivemos estudantes e profissionais de fora da UFBA, e pessoas de outros cursos, como do B.I, por exemplo. Pessoas com uma formação de pensamento crítico acerca desse debate sobre periferia, ocupação e o ex-cêntrico, que puderam contribuir na diversificação. Muitas delas moram na periferia, outras não são originalmente de Salvador. Ficou bem diverso, fiquei feliz com o resultado da seleção!”, conta a estudante. 

O Seminário Urbanismo na Bahia teve sua primeira realização também na FAU, e já esteve presente em cidades do interior do estado como Feira de Santana, Barreiras, Ilhéus e Vitória da Conquista. 

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