“Estou em ADM, se precisar sair, me ligue!”: bilhetes são usados como estratégia de comunicação em estacionamentos lotados da UFBA

Carro estacionado em filha dupla no estacionamento da Escola de Administração da Ufba | Foto: Kaylane Matos e Ana Letícia Costa

Por Kaylane Matos e Ana Letícia Costa

 

Atrasar para aula, ter o carro trancado em fila dupla, não encontrar vaga, ser multado ou ter o veículo rebocado pelo órgão que fiscaliza o trânsito em Salvador. Essas são situações  que atingem estudantes, docentes e servidores no campus do Canela na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Deixar um bilhete com recado e número de telefone no para-brisas do carro tornou-se estratégia para conviver com a falta de vagas nos estacionamentos.

Frases como “estou em ADM, saio 12h, se precisar sair, me ligue!”, “Estarei em prova no ICS de 8h às 9h15” e “Caso qualquer necessidade, me encontre na sala 7” se tornaram estratégias de comunicação em bilhetes deixados nos painéis de carros. A equipe do Notícias da Ufba esteve no pavilhão de aulas em cinco dias da semana, entre os meses de abril e maio, e encontrou 16 bilhetes nos estacionamentos. Pedidos de desculpas, número para contato e localização são informações deixadas com frequência.   

O Pavilhão de Aulas Reitor Heonir Rocha (PAC), no Canela, faz parte de um conjunto de 18 salas de aulas e seis laboratórios do curso de Fisioterapia, que abrigam, ao todo, cerca de 250 turmas, além de uma sala de cinema do circuito Sala de Arte.  Funcionários alertam para o grande fluxo de pessoas e veículos nos horários de pico: entre 7 e 9 horas, e depois das 18h. O  movimento intenso é desproporcional a quantidade de vagas ofertadas nos campi. “São os piores horários, muitos professores e alunos acabam vindo de Uber e outros aplicativos“, alerta um servidor que preferiu não se identificar.

Estacionamento lotado do PAC a noite | Foto: Kaylane Matos e Ana Letícia Costa

 

Para Ricardo Rocha, 23 anos, estudante de medicina no 4º semestre, encontrar uma vaga no período matutino beira o impossível. Para evitar o atraso, é necessário adotar táticas improvisadas de estacionamento. “Cheguei na faculdade às 10h20, tinha uma aula às 10h40, procurei vaga em todos os lados e não encontrei. Precisei estacionar na frente de outro carro  e deixei um bilhete no para-brisa com meu WhatsApp para que a pessoa me contactasse quando fosse sair. E mesmo assim, cheguei quase uma hora depois do começo da aula”, recorda.

Victor Romano, no 5º semestre de engenharia civil, frequenta a faculdade de direito da UFBA às terças e quintas no período noturno. Ele se sente inseguro de estacionar fora da faculdade à  noite, mas não há outra alternativa com o estacionamento sempre lotado.

“Virou costume não ter como estacionar dentro da faculdade. O estacionamento de cima é minúsculo e o estacionamento de baixo é extremamente apertado. Os carros ficam colados e é uma dor de cabeça para estacionar, ainda mais se tiverem diversos carros manobrando. Então, é necessário estacionar na rua, onde o perigo é maior”, compartilha o estudante.

Sem se identificar, uma servidora que trabalha no local confirmou que a cultura do bilhetinho dominou os pátios, no entanto, ela observa que nem sempre essa comunicação tem êxito. “Os alunos colocam bilhetinhos com o número do telefone para procurar, mas,  às vezes, nem funciona porque eles estão em prova ou em aula e não vão parar para atender o telefone”, pontua.  A falha no contato gera um efeito em cascata: horas de espera, atrasos e buzinaço nos pátios de estacionamento.

No prédio da Faculdade de Direito, terceirizados responsáveis pela segurança relataram que os estacionamentos não suportam mais a quantidade de alunos, principalmente a partir das 18h. Mesmo com a insegurança, estacionar na rua se torna a única solução para os alunos que lidam com o problema. Também foi apontado que os reboques de carros acontecem, principalmente, durante o dia. Além disso, um comportamento que agrava a situação é percebido em motoristas que estacionam de modo incorreto e ocupam mais espaço do que deveriam.

Carros aglomerados no estacionamento do Campus Canela Ufba | Foto: Kaylane Matos e Ana Letícia Costa

 

CONTROLE – Ao Notícias da Ufba, o diretor da Coordenação de Instalações de Uso Coletivo de Ensino, Pesquisa e Extensão – CIEPE,  João Oliveira Rios, disse ter ciência da situação e que discute em grupos de trabalhos ações para que o controle de acesso seja feito a fim de amenizar o problema. 

“O problema reside na falta de controle de acesso ao local. Sem controle, qualquer estacionamento em uma metrópole como Salvador ficará superlotado. O uso da tecnologia e cartões para controle de acesso de pessoas e veículos às dependências da UFBA devem ser levados em consideração”, comunicou o gestor. 

Em nota, a Superintendência de Administração Acadêmica (Supac) destaca que os espaços de estacionamento da universidade são destinados exclusivamente para “professores e servidores que atuam nos prédios do PAC, da Faculdade de Ciências Contábeis, Faculdade de Educação, Escola de Administração e pelos clientes e funcionários do Cinema Sala de Arte UFBA”. 

No entanto, por se tratar de áreas públicas, os servidores de segurança e guarita não possuem autonomia para gerir esse fluxo de entrada. O mesmo acontece no espaço da Faculdade de Direito, onde, mesmo com um setor reservado somente para docência, a questão da superlotação ainda é um problema constante para os alunos. 

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