Encontro no ISC reuniu representantes de movimentos de terreiro e quilombolas, em preparação ao Seminário Nas Teias de Anansi
Por: Júlia Mota
Nesta sexta-feira (18), o Coletivo Quilombo das Iyás realizou o encontro “Padê de Saberes”, preparatório para o Seminário Nas Teias de Anansi, que ocorrerá entre 27 e 29 de agosto, no campus de Ondina. O seminário discutirá os saberes dos povos de terreiro e quilombolas no campo da saúde. Estiveram presentes Ìyá Márcia d’Ogún e Yarobá Iêda Santos, da RENAFRO, Rosane Jovelino, do Conselho Quilombola da Bacia e Vale do Iguape, e Larissa Soares, do Coletivo de Estudantes Quilombolas da UFBA. A atividade, realizada em parceria com a equipe do Seminário, compõe a agenda do Quilombo das Iyás no combate ao racismo na formação em saúde.
“O que me incomoda é não discutirmos o racismo institucional em rede. Precisamos formar profissionais capazes de ler a pele preta, em todos os tons”, afirmou Yarobá Iêda dos Santos, da Rede de Mulheres de Terreiro e da Rede de Defensoras Negras por Direitos Humanos. “Será que estamos formando para isso? Quando falamos de hipertensão, lembramos que quem está na periferia muitas vezes não tem acesso ao alimento que recomendamos? Para combater o racismo na saúde, é preciso olhar para quem está sendo formado”.

Para Silvia Amorim, coordenadora do encontro e integrante do Quilombo das Iyás, o “Padê de Saberes” marca um avanço na trajetória do Instituto de Saúde Coletiva e da UFBA. “Essa mesa, até pouco tempo, seria impensável, não só no ISC, mas em toda a universidade”, afirmou. O encontro integra as ações do coletivo, fundado em 2023, que atua na defesa de estudantes negros e promove iniciativas como apoio acadêmico, mobilizações em escolas públicas e estratégias de permanência na universidade.
Em 2024, a faculdade de Medicina da UFBA comemorou a entrada de 40 estudantes negros por semestre no curso. Porém, faltam dados acerca da completude da formação desses estudantes em medicina e em outros cursos de saúde, como Saúde Coletiva, mesmo após 20 anos de implementação da Lei de Cotas na UFBA. Para os estudantes da área, as demandas da população negra estão além da entrada na universidade.
“Intelectualmente, eu percebo que passa muito pela não inclusão da nossa sabedoria e da sabedoria da nossa ancestralidade. Ter esse quilombo é ter um espaço coletivo de incentivo à intelectualidade acadêmica que me permite pensar: Olha, eu posso, porque tem uma galera lá na frente que estão lá presentes. Então é um espaço que eu posso ocupar e não vou estar sozinha. Foi importante pra mim como mulher preta com uma deficiência”, relatou Loise Betânia, estudante membro do Quilombo das Iyás e parte do comitê organizador do Seminário Nas Teias de Anansi, que ocorrerá em Agosto.
A fala de Loise Betânia ecoa uma preocupação também presente entre gestores do ISC, como destaca a vice-diretora Joilda Nery: “Quando as demandas chegam, buscamos escutar com atenção, discutir e encaminhar às instâncias responsáveis. No ensino, alguns componentes curriculares já abordam o racismo em saúde”, destacou. Ela também ressaltou o papel do Quilombo das Iyás como estratégia de organização e fortalecimento de estudantes negros. Integrante do comitê do Seminário de Agosto, Joilda afirmou que o evento será fundamental para debater os impactos do racismo nas comunidades afro-brasileiras, conectando saúde, religiosidade e saberes ancestrais”.


