Professor da UFBA vence prêmio Jabuti com livro focado na exploração dos trabalhadores do campo

Docente iniciou pesquisa durante o doutorado na USP | Foto: Guilherme Brito

Por Guilherme Brito


O professor Antônio Lobo, do Instituto de Geociências (IGEO) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), venceu a terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026 no eixo Ciência e Cultura, na categoria Engenharias. Publicado pela Editora da UFBA (Edufba), o livro é focado na exploração financeira sofrida pelos trabalhadores do campo de Irecê, no norte da Bahia, onde há grande produção de mamona, utilizada na produção de energia renovável.

Com o título “Biodiesel e Renda Camponesa: O Algoritmo da Despossessão”, o livro mostra a contradição entre a transição energética e o modo como os trabalhadores do campo são deixados de lado nos planos das grandes empresas de energia.  A obra foi premiada durante cerimônia no dia 11 de agosto, organizada pela Câmara Brasileira do Livro, no Teatro Sérgio Cardoso, na cidade de São Paulo.


O livro é resultado de uma pesquisa de 15 anos iniciada em 2010 no doutorado do professor pela Universidade de São Paulo (USP), onde Lobo defendeu a tese de que trabalhadores rurais são inseridos nos planos de empresas de energia de maneira subalterna. Após o fim da pós-graduação, o pesquisador continuou analisando o tema por meio de artigos enquanto não finalizava o estudo. Entre eles estão: 

  • “Territorialização do Programa nacional de Produção e uso de biodiesel e concetração de capital do Brasil” (acesse aqui e leia) 
  • “Reflexões sobre os impactos do Programa Nacional de Produção e uso de Biodiesel na produção do espaço rural brasileiro” (acesse aqui e leia) 
  • “Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel: sujeição da renda da terra camponesa ao capital no Território de Identidade de Irecê-BA” (acesse aqui e leia) 

Para o escritor, toda a pesquisa auxilia na compreensão das condições vividas por trabalhadores campestres da Bahia. 

“Quando a gente vai para a região de Irecê, o interesse do capital é a expropriação indireta da renda e apropriação da matéria-prima. O livro tem capacidade de mostrar como o capitalismo usa diferentes estratégias e se adapta de diferentes formas, estabelecendo relações territoriais de poder diferentes conforme a necessidade e o interesse que está posto à mesa”, declara.

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O autor reconhece a participação do Núcleo de Estudos Regionais e Agrários (NERA) na sua pesquisa. Lobo entrou no centro de pesquisas do IGEO ainda como professor adjunto da UFBA. A partir do seu ingresso no NERA, retomou, junto com duas bolsistas, a sua pesquisa de 15 anos que o faria vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026.

“Ainda como professor adjunto e vinculado ao NERA, demos continuidade ao desenvolvimento da pesquisa, aprofundando o debate teórico, o debate conceitual, para compreender melhor como que esses processos de expropriação de renda se dão na prática”, diz Lobo

DEBATE – Para Noeli Pertile, professora do IGEO e coordenadora do NERA, a premiação de Antônio Lobo é o reconhecimento da importância da universidade pública e da necessidade do debate acerca da vida campesina no País.

Da esquerda para direita, Analice Passos e Noeli Pertile, membras do NERA | Foto: Guilherme Brito

“É importante reconhecer a importância da universidade pública e das possibilidades para pesquisa. Incentivar a pesquisa, inclusive com financiamento, é um primeiro momento a ser pensado. Ter o reconhecimento de uma obra elaborada em uma instituição pública, que trate de aspectos da vida da população do campo, é muito importante. 

Analice Passos, doutoranda em Geografia pela UFBA e integrante do NERA, defende que a valorização da pesquisa é um reconhecimento do efeito da educação pública na sociedade. “É fruto de muito trabalho, dedicação e de uma pesquisa longa que vem do doutorado e de toda a sua formação. Vem da escola pública, chega na universidade e continua ainda se dedicando ao serviço público. Esse prêmio é o reconhecimento de tudo isso”.

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PUBLICAÇÃO – Em 2022, a tese de Antônio Lobo passou a ser formatada para a configuração de livro, sendo encaminhada para a Edufba em 2024. Somente em setembro do ano seguinte, 2025, o livro foi lançado no Planetário da UFBA, em uma cerimônia com cerca de 150 presentes. 

O Prêmio Jabuti Acadêmico, criado em 2023, é uma premiação literária que busca reconhecer  obras científicas, técnicas, profissionais e acadêmicas brasileiras. O prêmio conta com dois eixos: Ciência e Cultura, que se ramifica em 27 categorias de várias áreas do conhecimento como humanas, saúde, naturezas, entre outras, e também o eixo Prêmios Especiais, que condecora obras de divulgação científica, tradução e ilustração, por exemplo. O evento, organizado pela Câmara Brasileira do Livro, foi separado da edição tradicional para dar destaque à crescente produção acadêmica brasileira. O principal diferencial entre as duas organizações é a sua abordagem. Enquanto o Prêmio Jabuti abrange diversas categorias literárias, a edição acadêmica se restringe às pesquisas produzidas no Brasil.

Dos 5 vencedores anteriores, quatro atuam nos campus de Salvador e um em Vitória da Conquista | Foto: Reprodução / Mega Rádio VCA

Essa é a terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico e a sexta vez que um docente da UFBA vence um prêmio do evento. Em 2024, ganharam Luiza Mercante, do Instituto de Química, e Adriano Maia, do Instituto Multidisciplinar em Saúde. 

Em 2025, conquistaram João Salles, de Filosofia, Naomar Filho, do Instituto de Saúde Coletiva, e Jorge Augusto, do Instituto de Letras. Cada pesquisador ganha R$5 mil, além da estatueta do Prêmio Jabuti, que também é entregue às editoras.

Exemplares físicos da obra estão disponíveis para compra nas livrarias Edufba nos campus Canela e Ondina que funcionam, respectivamente, das 8h às 17h e das 8h30 às 17h, sempre de segunda a sexta. 

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