Desigualdade de gênero na ciência é discutida por pesquisadoras do Instituto de Química

Palestra aconteceu no Instituto de Geociências da UFBA | Foto: Giulia Sodré

Por Giulia Sodré

 Dados de 2026 do Conselho Internacional de Ciência (ISC) revelam que, em média, apenas 19% dos integrantes de academias científicas nacionais são mulheres. Esse número se deve a uma desigualdade de gênero histórica na ciência, tópico discutido em uma mesa redonda formada pelas  professoras do Instituto de Química da UFBA (IQUFBA) Floricéa Magalhães, Letícia Pereira, Maria das Graças Korn e Rayane Cristian, que participaram da Semana de Química da UFBA, que aconteceu entre os dias 2 e 4 de setembro. 

O encontro das docentes aconteceu na quinta-feira (3), na mesa redonda “O papel das mulheres no desenvolvimento da Química”, organizada pelo Centro Acadêmico de Química. Letícia Pereira, pesquisadora da história da química, explica que as mulheres sempre participaram da ciência, porém, foram impedidas de exercer funções formais por séculos, tendo seus trabalhos reduzidos a assistentes. 

A doutora explica que mulheres só tiveram a oportunidade de integrar instituições de ensino no século 19 e que, quando começaram a fazer parte de laboratórios em cargos mais altos, os homens continuaram subestimando o trabalho feminino. 

“A sociedade ocidental tem, desde o século 18, discursos científicos que afirmam que as mulheres não seriam capazes de produzir conhecimento porque sua natureza biológica não lhes permitia utilizar plenamente suas capacidades cognitivas, como se elas pudessem ser reduzidas somente à sua capacidade reprodutora”, comenta.

APAGAMENTO – A professora Floricéa Magalhães, chefe do departamento de Química Orgânica do IQUFBA, apresentou o conceito de Efeito Matilda, nomeado pela historiadora estadunidense Margaret W. Rossiter em homenagem à sufragista Matilda Joslyn Gage, que denomina o fenômeno de minimização das conquistas das mulheres. Ela recordou o caso da pesquisadora britânica Rosalind Franklin, que em 1953 teve sua Fotografia 51 (uma imagem do DNA que revelou a estrutura em forma de “X” da molécula) roubada pelos cientistas Watson e Crick. Os dois receberam um Prêmio Nobel de Medicina pela pesquisa sem creditar a cientista.

Informações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) revelam que, em 2026, 57% dos alunos de mestrado e doutorado são mulheres, porém, quando analisado o corpo docente de programas de pós-graduação, elas somam apenas 42%. Esse fenômeno, Floricéa explica, é chamado Efeito Tesoura, um afunilamento da concentração de mulheres à medida que a carreira evolui. 

No nível 1A, o mais alto das bolsas de produtividade, dos 1,4 mil bolsistas, 27% são mulheres, de acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Igualdade não é apenas contar presença, é redistribuir oportunidade, reconhecimento e poder de decisão. Presença não é poder”, aponta a docente.

A concepção de Efeito Matilda surgiu no ano de 1933 | Foto: Giulia Sodré

DESIGUALDADE – O debate racial foi trazido pela professora Rayane Cristian, pesquisadora e doutora mineira, como fator importante na compreensão da desigualdade de gênero na ciência. Em 2018, apenas 23% das mulheres docentes do ensino superior eram negras, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Quando consideradas as docentes bolsistas, a porcentagem cai para 2,5%. 

“Quando se tem um grupo diverso, é possível desenvolver coisas muito mais tecnológicas. Nós não podemos afastar a questão de gênero e raça, porque ela atravessa o desenvolvimento da ciência”, comenta.

 

Rayane é doutora em Química pela UFMG | Foto: Giulia Sodré

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AVANÇOS – Para mudar esse cenário, as professoras afirmaram que é necessário reescrever a narrativa. Existem iniciativas governamentais, como a Lei nº 14.986 de 2024, que tornou obrigatória a inclusão das conquistas femininas nos materiais didáticos da educação básica.

Outra ação importante, apontada pela professora Maria das Graças Korn, é o reconhecimento da maternidade, fator que ainda traz dificuldades para cientistas mulheres por forçar uma redução da produtividade pelas instituições científicas. Ela ressaltou a atualização da Plataforma Lattes, ferramenta de currículo virtual do CNPq, que em 2021 passou a permitir o registro da licença maternidade no portal.

“Nós precisamos incentivar a criação de formas de apoio às mães. Equilibrar a produção científica e a maternidade não é fácil, é uma grande batalha”, diz a pesquisadora.

ESTUDANTES  – Na plateia, alunos que assistiram ao debate pontuaram a relevância do tema, como foi o caso de Yaçanã Clímaco, aluna de licenciatura em Química. Ela diz que a palestra deu sensação de esperança e inspiração por estar diante de  mulheres que atuam no próprio Instituto de Química da UFBA. 

Essa é a 13ª edição do evento | Foto: Giulia Sodré

João Gabriel Rios, também estudante de licenciatura, enxergou a conversa como parte importante da sua formação como professor. “Creio que conhecer e refletir acerca dessas questões ajuda a compreender melhor a química, sua história e como questões políticas, raciais e de gênero exerceram e ainda exercem influência significativa na ciência”, pontua.

 

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