Calouradas deixam de acontecer após normas serem implantadas na universidade

Estudantes na calourada de Comunicação em setembro de 2025 | Foto: Nauan Sacramento
por: Allison Machado
O primeiro semestre de 2026 teve início sem uma agenda que costuma ser tradição na Universidade Federal da Bahia (UFBA): as calouradas. Pelo menos sete festas que costumam acontecer todos os semestres sequer foram anunciadas, por conta da portaria 094, que entrou em vigor em 2025 e estabeleceu regras para realização de eventos. Os produtores afirmam que não têm condições de se adequar às normativas.  
Entre as festas que não aconteceram estão Cachorrada, Químicarregue, Reunight, Geobar e  Paredão da Facom. A portaria regulamenta os eventos e festas que ocorrem nos campus da universidade, desde a estimativa de público até os horários de início e fim das festas. Um dos pontos mais criticados é o artigo dois, que determina que os organizadores devem contratar responsáveis pela proteção do evento. O contrato de vigilância da universidade contempla apenas a preservação do patrimônio.
Aluna em calourada do Instituto de Geociências | Foto: Allison Machado
A reportagem do Notícias da UFBA conversou com cinco produtores de calouradas. Um dos problemas mais graves apontados é a dificuldade financeira. Para seguir as diretrizes e contratar seguranças, por exemplo, seria necessário desembolsar cerca de R$21 mil.
Outros R$2 mil seriam necessários para contratar um arquiteto ou engenheiro que fizesse a vistoria do local e, após a visita do Corpo de Bombeiros, o valor seria usado para emitir um certificado de liberação para a UFBA. Esse tipo de documento pode ser solicitado gratuitamente pela universidade, mas não em casos de festas. 
“Sem patrocínio, uma atlética ou um centro acadêmico não conseguem custear. Essa portaria impede as festas”, afirma Ianca Ramigio, aluna de Letras Vernáculas e membro da diretoria da Atlética Letais.
DIÁLOGO – As calouradas são organizadas por atléticas ou centros acadêmicos. No dia 17 de março, atléticas dos cursos de Letras e Artes lançaram um vídeo e uma nota de repúdio com críticas às normas da portaria. Os representantes estudantis alegam que as diretrizes foram criadas sem diálogo com os estudantes. Eles pedem a revogação da portaria. 
Os organizadores argumentam que a postura da UFBA mudou em setembro de 2025,  após a segunda edição do Paredão da Facom, organizada pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Comunicação. O evento, segundo os produtores, contou com um público de cerca de sete mil pessoas, mas uma briga foi filmada e as imagens repercutiram na imprensa e nas redes sociais.
Outra queixa das atléticas é a falta de um lugar específico para que os eventos sejam feitos. Quando realizados dentro do prédio das faculdades, o trâmite é mais fácil, não passa diretamente pela Pró-Reitoria de Extensão, Arte e Cultura (PROEXT), e sim, pela unidade interna. Se ocorrer fora dos prédios, passam a obedecer não somente as regras da universidade, mas regras municipais, como a criação de um Plano de Segurança e verificação da potência e emissão de ruído do som, determinado pelo órgão competente do município.
Uma alternativa para a realização das festas poderia ser o Complexo Educacional de Educação Física (CEEF) ou o prédio do DCE, localizados no campus Ondina. No entanto, ambos apresentam problemas estruturais: o primeiro está degradado com quadras esburacadas, rampas sem acessibilidade e pouca iluminação noturna; o outro é um casarão antigo e não comporta muitas pessoas. 
Quadra do CEEF da UFBA | Foto: Pedro de Sousa
Sem outras alternativas, os organizadores alegam que as festas acabam sufocadas, sem locais seguros e que não há como atender o público estimado.
SEGURANÇA – Em entrevista ao Notícias da UFBA, o pró-reitor da PROEXT, Guilherme Bertissolo, nega que tenha ocorrido falta de diálogo com os estudantes antes da elaboração da portaria. O pró-reitor afirma que a portaria foi feita com participação dos grupos estudantis, incluindo o DCE, em encontros ocorridos ao longo de quase uma década (2015-2024), período em que era coordenador de eventos da PROEXT.  
“A ideia da portaria não é proibir que as festas ocorram, e sim, permitir dentro de determinados limites para que a gente proteja a comunidade”, ressaltou.
Guilherme afirma que o setor está aberto para a comunidade estudantil e que, juntamente com a COSEG (Coordenação de Gestão de Segurança), os órgãos auxiliam as atléticas e CAs na criação do Plano de Segurança, que é obrigatório conforme o Art. 6º da portaria.
PROTESTO – Como forma de protesto, o DCE (Diretório Central dos Estudantes) promoveu no CEEF a Calourada Unificada no campus Ondina no dia 17 de março. Sob gritos de “abaixo a portaria”. A festa teve ampla participação dos estudantes e ocorreu sem nenhuma intercorrência grave.
Membros do DCE na Calourada Unificada | Foto: Yasmine Braz
O diretor de Assistência Estudantil do DCE e aluno de Direito, Moacir Cruz, acredita que há uma diferença entre o que está escrito e o que está sendo realizado. Ele argumenta que se antes as festas eram feitas com tranquilidade, atualmente há um movimento para que sejam indeferidas, com a justificativa de possíveis danos ao patrimônio da UFBA e o receio da proporção dos eventos.
Ele alega que a Calourada Unificada foi um sucesso graças ao diálogo que houve com a pró-reitoria durante a organização da festa. O diretor espera que o evento promova mudanças nas atuais normativas dos eventos no campus. 
“Com a postura aberta da PROEXT, vamos impulsionar o debate em toda a universidade e chegar à melhor possibilidade normativa”, comentou.

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