Florence Le Cam denuncia exploração de estagiários no jornalismo belga

Além da crise na profissão, pesquisadora da Bélgica destaca como indicador alarmante o desaparecimento de mulheres no jornalismo

Durante o seminário internacional realizado na FACOM/UFBA, no dia 28 de outubro, a pesquisadora Florence Le Cam, da Université libre de Bruxelles, levantou um debate acerca da sociologia do jornalismo, com indicadores alarmantes para a profissão. Entre eles, destacou a exploração de estagiários na Bélgica, muitos dos quais executam funções jornalísticas completas sem remuneração adequada e sob “contratos fantasiosos”.

No Brasil, a pesquisa “O estágio em jornalismo no Distrito Federal”, de 2021, da Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo, apontou que estagiários da área também substituem atividades de jornalistas profissionais, além de ter fragilidades no processo de supervisão, fenômeno semelhante ao Belga.

A estrutura de gênero na profissão foi outro tema discutido. O perfil do jornalista na Bélgica é o do “masculino, branco e velho” pontuou Florence. Deu continuidade à fala abordando o desaparecimento das mulheres belgas na profissão: “Se você é uma mulher jornalista e se você quer ter um filho, sua trajetória está definida não somente pela sua escolha, mas também pelo contexto da maternidade”, acrescentou.

Outro ponto crítico levantado é a crise da profissão, que a pesquisadora associa à orientação mercantil da mídia, que prioriza o lucro em detrimento de sua missão social. No cenário brasileiro e especialmente na Bahia, ela apontou a influência dominante de políticos e grandes oligarcas nos veículos de comunicação como a, o que compromete severamente a independência editorial.

A partir da Teoria Interacionista da Escola de Chicago, Le Cam afirmou que o jornalismo deve ser compreendido como um trabalho, objeto social complexo, ligado à vida cotidiana dos atores que o produzem. Por fim, apresentou dados de pesquisa comparativa global que mostram que as práticas jornalísticas variam muito de país para país, com algumas situações internacionais ainda piores que as brasileiras.

A diversidade no modo como a profissão é exercida ao redor do mundo também foi abordada por Lia Seixas, coordenadora do Núcleo de Estudos em Jornalismo (Njor) e organizadora do evento,  “em diferentes partes do mundo, como na África Subsaariana, jornalistas trabalham sem salário, dependendo de projetos e ONGs para sobreviver. Essa diversidade de práticas mostra o quanto o jornalismo é complexo e diverso globalmente”, comenta.

O evento foi resultado de uma parceria do Núcleo de Estudos em Jornalismo (Njor), com o Laboratoire des pratiques et identités journalistiques (LAPIJ). A parceria amplia intercâmbios acadêmicos entre a FACOM e a ULB, além de ampliar a cooperação internacional, promovendo debates sobre a sociologia do jornalismo e seus desafios.

3 thoughts on “Florence Le Cam denuncia exploração de estagiários no jornalismo belga

  1. Ótima análise! A maior rede de televisão da Bahia foi criada e é mantida por uma família ligada à política, o que evidencia ainda mais o nível de influência sobre os meios de comunicação. É realmente lamentável que essa estrutura ainda comprometa a autonomia jornalística.

    1. Excelente abordagem. Alguns dados que mostram o quanto há impedimentos para o melhor desenvolvimento da área jornalística.
      Além disso o texto bem escrito. Sou suspeita a falar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *