Chapa única assume centro acadêmico de curso sem sede fixa, com aulas noturnas em espaços sem acessibilidade nem segurança
A chapa única Lina Pereira foi eleita para o Centro Acadêmico de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) com 59 votos favoráveis e 5 contrários, totalizando 64 votantes. A nova gestão, com mandato de um ano, é formada por estudantes de diferentes semestres, reunidos após o esvaziamento político provocado pela pandemia. Os membros eleitos afirmam que suas prioridades serão a busca por um espaço físico fixo no campus de Ondina e o fortalecimento da permanência estudantil.
Aulas noturnas em São Lázaro são consideradas insustentáveis
Com aulas no turno da noite, os estudantes do curso apontam que é inviável permanecer em São Lázaro, unidade de origem da graduação. A ausência de iluminação adequada, a insegurança e a falta de acessibilidade nos prédios têm colocado em risco a integridade física de quem frequenta o campus nesse horário. “Tem colega nossa que não conseguia subir as escadas ou circular com autonomia. É um curso formado majoritariamente por mulheres, pessoas LGBTQIA+ e com deficiência. Mesmo assim, isso nunca foi levado em conta”, afirma Elaine Angélica, estudante.
A última mudança de local aconteceu justamente por esses fatores. O curso foi transferido para a Faculdade de Comunicação (FACOM), onde, segundo os alunos, há maior iluminação, presença mínima de vigilância e condições básicas de circulação. Apesar da melhora relativa, a permanência na FACOM ainda é incerta.
Em nota à reportagem, o diretor da FACOM, Leonardo Costa, afirmou que a presença do curso na unidade foi uma solicitação feita no semestre anterior e está em avaliação. “É um fato que deve seguir sendo analisado pela FACOM, tendo em vista que se trata de um curso de outra unidade”, disse.
Falta de sede própria e instabilidade afetam rotina acadêmica
Criado em 2008 no contexto do REUNI, o Bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade nunca teve sede própria. Desde então, passou por diversas unidades da UFBA, sendo transferido repetidamente de prédio em prédio. Estudantes relatam que cada nova alocação exige reorganização da rotina e das atividades, sem qualquer garantia de estabilidade. “Já estivemos no PAF 5, no PAF 6, no PAF 1… Cada vez que surge um problema estrutural, somos movidos, mesmo que o novo prédio também não tenha estrutura adequada”, conta Juliana Alves, estudante do 8º semestre.

Além da instabilidade, o curso não dispõe de um espaço físico destinado ao centro acadêmico. Atualmente, os estudantes dividem uma sala com o curso de História, utilizada apenas como depósito de materiais. “Não temos onde guardar nossos documentos, onde fazer reuniões, onde receber alunas. A gente existe, mas ninguém vê”, completa Elaine.
Invisibilidade institucional compromete formação e empregabilidade
Segundo os estudantes, há desconhecimento generalizado sobre a existência do curso, tanto dentro quanto fora da universidade. “Muita gente acha que é uma disciplina do BI ou uma pós. Isso compromete nossa identidade enquanto graduação e afeta diretamente a inserção no mercado de trabalho”, afirma Juliana.
A falta de reconhecimento institucional se reflete na ocupação de cargos públicos voltados à diversidade. De acordo com os relatos, é comum que vagas destinadas a políticas de gênero e diversidade sejam preenchidas por profissionais de outras áreas. “Tem edital que exige ‘experiência com diversidade’, mas não exige formação na área. Já vimos cargos sendo ocupados por pessoas sem nenhuma habilitação específica, enquanto quem se formou aqui é ignorado”, diz Elaine.
Apesar do cenário, a nova gestão do C.A. afirma que manterá a articulação política e continuará cobrando a universidade por melhorias estruturais e reconhecimento. “A gente resiste porque acredita no curso e no que ele representa. Mas não dá mais para aceitar condições tão precárias”, conclui Juliana.

