Evento destacou pesquisas para resgate da literatura de quem foi posto à margem.

Foto: William Ribeiro
Para além de escritoras negras conhecidas do grande público, o simpósio promovido pelo grupo de pesquisa Filologia de Letras Negras (FILEN) apresentou novas contribuições à memória através de achados de estudantes da graduação e pós-graduação do Instituto de Letras da UFBA, no último dia 15.
Defendendo a pesquisa para além da universidade, a professora Rosinês Duarte, coordenadora do FILEN, projeta a criação de um acervo digital livre e gratuito com as obras redescobertas. Questionada sobre os desafios para preservação da memória no país, analisa: “O terreno da memória ainda é muito pouco explorado e as políticas também. Na maioria das vezes as iniciativas são individuais. Alguns editais viabilizam essa construção, mas ainda é muito incipiente para o tanto de memória que precisamos acessar porque o memoricídio foi e é um episódio muito eficaz de violência. Não basta a gente acessar essa memória, mas dar visibilidade a ela.”
Dividida em dois momentos, as produções acadêmicas do grupo apontam para escritas de grupos sociais invisibilizados, a exemplo de escritoras de Salvador como Ana Célia, Lindinalva Rosa de Oliveira, Estela Azevedo e Rivalda Costa. As estudantes Laura Sacramento, Yasmin Mota e Beatriz Santiago compartilharam como tais autoras se valeram de estratégias para divulgar textos em jornais de grande circulação, chegando a utilizar a seção dedicada ao leitor para apresentarem suas poesias. Isso ainda nos anos 70 a 90.
Até a disponibilização do acervo digital, os pesquisadores elencam desafios diversos como financiamento, dispersão dos materiais, tempo e recursos humanos . Ainda assim, comemoram a expansão dos achados que saltou de 3 para 16 autoras. O evento também destacou a importância de outras literaturas em práticas pedagógicas a exemplo dos cânticos entoados por destaladeiras de fumo de Arapiraca, em Alagoas, pesquisa da doutoranda Wilma Maciel; e das batalhas de poesia de mulheres negras no Sarau da Onça, em Salvador.
O sarau, criado no bairro de Sussuarana, periferia de Salvador, chamou atenção da doutoranda Vanessa Reis. Ela conta como sua pesquisa conecta literatura e educação: “Estou pesquisando a poética das mulheres negras, mas aí, enquanto professora, já estou me preocupando o que vou eu trazer dessa pesquisa para meu campo de atuação. O que vou apresentar é um ensaio de como essa poética podem ser trazidas para o contexto da educação e transformado em práticas compromissadas com a pedagogia decolonial e antirracista”.

