Palestra na UFBA discute violência contra a mulher com uso de deepfakes sexuais

Evento aconteceu no auditório do Instituto de Matemática e Estatística da UFBA | Foto: Giulia Sodré

Por Giulia Sodré

 

No Brasil, de agosto de 2025 a fevereiro de 2026, 222 mulheres foram vítimas de deepfakes sexuais, vídeos e imagens falsas geradas por inteligência artificial (IA), de acordo com o mapeamento da SaferNet Brasil, ONG de defesa de direitos humanos na internet. Esse tema foi abordado, na quinta-feira (1), na palestra da pesquisadora Sofia Schurig, aluna prestes a se formar na Faculdade de Comunicação da UFBA (FACOM) e que integra a SaferNet Brasil. 

Com o título “Rostos fabricados, danos reais: como a IA generativa é manipulada para criação de deepfakes sexuais”, a palestra aconteceu no Instituto de Matemática e Estatística da UFBA e fez parte do 16° Encontro de Segurança em Informática (EnSI).

Deepfakes, em sua maioria, são feitos com o auxílio da IA generativa, uma tecnologia que usa informações coletadas de redes sociais, notícias, conteúdo visual, entre outros dados disponíveis na internet, para treinar um sistema que identifica padrões e cria novos conteúdos a partir dessa base. Os dados da Safernet  apontam que 100% das vítimas de deepfakes são mulheres, alunas de 12 a 17 anos ou professoras. 

As imagens e vídeos adulterados por deepfakes podem ser usados como chantagem e violência psicológica, e mesmo com a retirada do conteúdo da internet, os danos permanecem. Consequências como estigmatização, isolamento e morte social (rejeição extrema) levam à degradação da saúde mental da vítima, e, em alguns casos, à ideação suicida.

“As vítimas falam muito ‘era eu, mas não sou eu’. É uma quebra cognitiva grande por existir uma imagem com o seu rosto, mas que não é você. A pessoa perde o controle da própria imagem. Não podemos tratar esse assunto como brincadeira”, diz Schurig.

CRIAÇÃO – Em 2022, com o boom da IA, houve o crescimento exponencial do uso dessa tecnologia e, em 2025, de acordo com dados do Observatório Fundação Itaú e da Datafolha, a IA estava presente na vida de 93% dos brasileiros. Dentre as pessoas que usam a IA no Brasil, 45% utilizam para gerar imagens e vídeos. Essa tendência abriu espaço para a expansão do acesso às alternativas  de criação de conteúdo sexual artificial. 

A maioria dos modelos atuais de IA tem travas para impedir a geração de imagens que envolvem abuso sexual, porém, existem formas de remover esses filtros de segurança e retreinar o modelo com um conjunto de dados próprios. Assim, o indivíduo consegue introduzir informação de violência sexual, pornografia e pedofilia na ferramenta para uso pessoal e comercialização das imagens e vídeos produzidos. 

“Geralmente, o indivíduo pega um dataset da vítima, por exemplo, que pode ser formado pelo perfil do Instagram pessoal ou da família, e todas as fotos e vídeos disponíveis na internet. Ele vai alimentar o sistema com as fotos e com o conteúdo de pornografia adulta para criar um modelo especializado em gerar conteúdo de violência sexual com o rosto daquela pessoa”, explica a palestrante. 

Os deepfakes sexuais podem ser produzidos também em plataformas como o Telegram, aplicativo que não demanda autenticação da conta e permite “hospedar” um robô com a ferramenta de “nudificação”, atalho para criar imagens da vítima despida. “Hoje estamos na era da ‘nudificação’ como serviço, e é um serviço muito lucrativo”, pontua Sofia.

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LEIS – Não existe uma lei sobre deepfakes no Brasil, mas em 2021 foi criada a Lei nº 14.188, que estabeleceu o crime de violência psicológica contra a mulher. Em 2025 foi promulgada a Lei nº 15.123/2025, que aumenta a pena de reclusão pela metade se o crime for praticado com o uso de tecnologia para manipular a imagem da vítima por som ou vídeo. Além dessas, existem leis mais específicas que condenam a difamação e exposição não consensual da intimidade sexual, as quais se aplicam no caso de deepfakes sexuais e garantem à vítima indenização por danos morais.

Schurig ressalta que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) proíbe a manipulação de imagens de crianças e adolescentes desde 2008, e que em agosto de 2026 houve uma atualização para auxiliar a tipificação de conteúdo de violência sexual gerado por IA, o que permitirá a contabilização dessas ocorrências no país de forma transparente.

ESTUDANTES – A aluna de Engenharia Química Alessandra Simões, 22 anos, comenta que a palestra  tratou de uma crescente preocupação sua. Alessandra diz que os homens usam a tecnologia como arma para difamar e manipular as mulheres e que teme pela própria segurança: “Tenho medo pela minha privacidade. Não sei como me proteger ou proteger outras mulheres que conheço”. 

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O coordenador do Núcleo de Segurança da Informação e Comunicação da UFBA (CoSIC), Kleber Mascarenhas Júnior, explicou que deepfakes na universidade são uma preocupação, mas é difícil desenvolver técnicas eficazes de identificação por conta da veloz e constante evolução da IA. 

“Precisamos combinar recursos técnicos com procedimentos de verificação, conscientização e, principalmente, educação digital. Para o CoSIC, o desafio não é somente encontrar ferramentas capazes de identificar conteúdos falsos, mas também preparar a comunidade universitária para uma realidade em que ver ou ouvir algo já não significa necessariamente que aquilo aconteceu de fato”, pontua.

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